domingo, 17 de outubro de 2010

POR QUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA? (Parte I)

    Quando eu era miúdo ia para o estádio gritar A-cadé-mi-ca!!! A-cadé-mi-ca!!!...
    O epíteto de Briosa já então existia mas não era corrente chamar-se por ele. Esta moda de gritar Brioooooooooooooosa!!!... dum lado ao outro do campo, num estilo que se espalhou como rastilho de pólvora a claques de outros clubes, surgiu apenas nas últimas décadas do nosso historial academista de mais de um século.
    Mas porquê Briosa? E desde quando se colou tal nome à equipa de futebol da Académica, hoje Académica-OAF? Que fundo mistério é esse que não encontro decifrado em livro ou site algum, que nem sequer se questiona, antes se aceitando como se de um dogma se tratasse?
    Foi para responder a estas questões que escrevi este post e mais dois que se lhe seguirão, já que a estória é comprida e cabeluda, remontando a um conflito que dividiu a Academia de Coimbra em 1885, ainda o futebol não tinha chegado à nossa cidade!!!...
    Quem diria? Afinal, a Briosa nem sempre foi a equipa de futebol da Académica!!!... Quem terá sido, então?
    Abro aqui um parêntesis para agradecer ao grande amigo Luís Filipe Colaço (à esquerda na foto) – que comigo e mais cinco fundou Os Álamos e que acompanhou Zeca Afonso na gravação de Contos Velhos Rumos Novos e Traz Outro Amigo Também – a dica fabulosa que me deu: Zé, nas memórias do General Norton de Matos há qualquer coisa sobre a Briosa que te deve interessar…
    Uma vez encontrada uma pista, o resto veio a seguir. Mas nem tudo foram facilidades. E isto porque quem escreveu sobre a nossa antiga Academia o fez em livros de memórias, várias décadas depois dos acontecimentos terem ocorrido, falhando-lhe já precisão nos factos, nas datas e nas pessoas. E, mais do que isso: a história nunca é contada de forma desapaixonada; tem sempre as cores de quem a conta, porque cada um vê as coisas pintadas da cor da sua simpatia.
    Ora, sendo que no caso vertente tudo se passou em clima de enorme efervescência política – estávamos então a 25 anos da implantação da República – tive que “ouvir” as duas partes no conflito, ou seja, os monárquicos e os republicanos!
    Comecemos, então, por ouvir o General Norton de Matos, aquele que no final dos anos 40 disputou as eleições para a Presidência da República contra o candidato de Salazar. Norton de Matos, que frequentou a Universidade de Coimbra em 1884-88, dedica nas suas memórias algumas páginas a este período.
    Conta-nos ele que havia em Coimbra dois tipos distintos de estudantes: o grupo dos ricos, dos bem nascidos, dos que tinham nomes ilustres; e os outros, a maioria, filhos da classe média, alguns de condição modesta, com mesadas que raramente excediam os 15 mil reis. Norton de Matos dava-se com gente de ambos os grupos; por nascimento, estava ligado ao primeiro, mas, por educação e tendência política republicana e socializante, tinha muitos amigos no outro campo. Escreve Norton de Matos, com evidente mágoa, que o grupo aristocrata discriminava os restantes e se isolava na sua sobranceria snobe, de tal forma que os seus membros eram apelidados de polainas, o que, nos dias de hoje, equivalerá a “meninos betinhos”.
    Já António Cabral, um dos líderes dos polainas, ao escrever também as suas memórias, faz a clivagem entre os dois grupos em termos políticos, ao contrário de Norton de Matos, que centra a sua análise na clivagem socio-económica. Para António Cabral, o que havia era um pequeno grupo de republiqueiros, vermelhaços de ideias avançadas, ideólogos e sonhadores, que viam na república a salvação da terra amada, da pátria querida, que eles reputavam em vias de perdição.
    É com base nestas duas fontes e, ainda, no In Illo Tempore de Trindade Coelho – que dá aos polainas a designação mais rebuscada de polainudos – que a estória pode ser reconstituída.
    Fica para o próximo post      
   
    Zé Veloso
   
   Nota: O tema PORQUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA é tratado em 3 crónicas sequenciais: ParteI, ParteII e Parte III.

2 comentários:

  1. Muito interessante e pertinente esta procura da razão de se chamar Briosa à AAC.
    Fui ao Jamor ver pela primeira vez um jogo de futebol, ao vivo e a cores e ia observando mais as reações dos espectadores e o ambiente envolvente do espetáculo, do que o próprio jogo, pois desconheço as regras!
    Confesso que me deixei envolver nas emoções e foi com alegria que regressei a Coimbra.
    Aguardo expectante os próximos capítulos.

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  2. Celeste Maria,
    Obrigado pelo comentário.
    Não sei se reparou, as partes II e III do PORQUE A BRIOSA É BRIOSA estão disponíveis no blogue.
    Zé Veloso

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