segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ANDAR À LEBRE

    No meu tempo de Coimbra, quando se dizia que uma República «andava à lebre» era porque o fim da caixa e do crédito na mercearia tinham chegado mais cedo do que o fim do mês, não restando aos repúblicos outra alternativa que não fosse distribuírem-se por outras Repúblicas, onde comeriam até que a caixa se recompusesse com as mesadas do mês seguinte.
    Se várias Repúblicas andavam à lebre ao mesmo tempo, o problema passava para as cozinheiras, que teriam de fazer mais comida com o mesmo conduto, que onde comem oito também comem nove ou dez, desde que não se fuja muito das arrozadas. Todos passavam a comer um pouco pior para que todos pudessem continuar a comer. A solidariedade sempre foi uma qualidade do nosso povo e também não era negada entre os estudantes.
    O que eu não entendia, na altura, era porque se chamava «andar à lebre», quando lebre era coisa que nem vê-la; e o coelho, se o havia, andava bem escondido por debaixo do arroz ou das batatas. Mas o termo era já corrente nos tempos de Antão de Vasconcelos, estudante brasileiro que cursou Direito entre 1860 e 1865 e que escreveu mais tarde as célebres Memórias do Mata-Carochas.
    Segundo o Mata-Carochas, quando o estudante por estroina, jogador ou vagabundo perde as mesadas, que vai rebatendo, ou a família lhas suspende por castigo ou por pobreza, vê-se ele na contingência de empenhar ou vender tudo o que tem, a própria cama, e assim fica «à pauperibus», como ali se diz. Então, explora as repúblicas amigas, almoçando aqui, ceando acolá, dormindo com alguns amigos ou algures embrulhado na capa, até que melhorem os tempos e sopre a bonança. Este estado é ali denominado – «andar à lebre».
    E Amílcar Ferreira de Castro, em A Gíria dos Estudantes de Coimbra, adianta uma explicação plausível para a expressão «andar à lebre»: acção semelhante à do caçador que para caçar a lebre tem de percorrer muitos lugares. Temos, assim, que, em tempos que já não são os meus, se chamava «caçador» ao estudante que andava à lebre.
    Voltando ao Mata-Carochas, num capítulo do livro dedicado à Associação Filantrópico-Académica (lembram-se dela?), podemos ler:
    Quando chegava ao conhecimento da Associação que algum companheiro «andava à lebre», mandava-lhe pequena quantia e logo abria uma subscrição, sem nunca declinar o nome do «caçador». Era assim:
    Um pegava no gorro, abeirava-se dos grupos ao cavaco e dizia:
    «Oh, coisas; deitai aqui o que quiserdes.» Toda a gente dava, isto é, largava dentro do gorro o que queria ou podia.
    Feita a colecta, embrulhava-se a quantia em um papel; espreitava-se o tipo e logo que era encontrado o portador, descia o gorro pela cara abaixo, mascarando-se, e entregava-lhe o embrulho sem balbuciar palavra; se o sujeito tinha ponto certo, depositava-se no lugar para lhe ser entregue e, logo que saía o portador, entrava outro a vigiar a pontualidade da entrega, de forma a não haver burla ou ladroeira do depositário.
    O «caçador» não sabia quem lho dava e os académicos não sabiam para quem davam, mas sabiam a que fim se destinava.
    Sábado de manhã, ao passar os olhos pelo Expresso, chamou-me a atenção uma notícia: «Estudantes de Aveiro e Algarve lançam campanhas de recolha de alimentos para colegas em dificuldades». A notícia conta que naquelas Universidades foram montados locais de recolha onde os estudantes colocam bens alimentares essenciais que são depois distribuídos aos alunos que se encontram em dificuldade. E esclarece que, na Universidade de Aveiro, para preservar a identidade dos estudantes, a distribuição será assegurada pelo gabinete pedagógico da UA, a única entidade que conhece quem pediu ajuda. Tal como no tempo de Antão de Vasconcelos, o dar sem saber para quem, embora conhecendo o fim, e o respeito pela identidade de quem é ajudado.
    Sábado à tarde fui ao supermercado. Estava a decorrer a recolha do Banco Alimentar contra a Fome. Abeirou-se de mim um jovem que me disse, simplesmente – O que quiser dar. O jovem não vinha de capa e batina mas o gesto era igual ao que vem referido nas Memórias do Mata-Carochas. Só que em vez de me estender um gorro de pano preto me entregou um saco de plástico branco.
    Zé Veloso

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

... E ASSIM NASCERAM AS REAIS REPÚBLICAS!

Na edição de 1792 do Palito Métrico (1) aparece um curioso texto, no qual um Bacharel aconselha um rapazote, que se prepara para ir estudar para Coimbra, sobre a forma económica de aí viver. Falando na escolha da habitação, diz-lhe a páginas tantas: «Para que em Coimbra habite economicamente, não procure casas; procure, sim, a casa de umas casas, quero dizer, alugue um quarto, o qual baste para recolher-se a estudar, a comer e a dormir.»
Mas nem só nos quartos se habitava. Estudantes mais abastados alugavam casas onde viviam com seus criados, cavalos e alfaias, luxo que, evidentemente, não estava ao alcance de todas as bolsas. Aliás, o nosso Bacharel também advertia contra os perigos de alugar uma casa: «Pelo que pertence à habitação, adopte V. M. o nosso adágio – Casa, em quanto caibas – nem V. M. lá para o futuro caia em gastar o seu dinheiro em obras de pedra e cal.»
Voltando ao Palito Métrico, o Bacharel fazia figura de sábio, mas não contava tudo. Por exemplo, esquecia-se de informar que os alojamentos sempre tinham sido escassos e que havia senhorios que preferiam deixar as casas devolutas, não só porque o tabelamento das rendas (que vigorou até à Reforma Pombalina) tornava o negócio pouco aliciante, mas também porque era difícil a convivência da população de Coimbra, sobretudo a da Baixa, com a sociedade académica, face aos abusos e à vida desregrada de muitos escolares. Mas é interessante notar que o Palito Métrico – uma colectânea de textos  que plasmava as tradições e o modo de viver da sociedade escolar na segunda metade do séc. XVIII – não fazia, ao longo das suas quatro centenas e meia de páginas, uma única referência à existência de Repúblicas! É que, naquele tempo, as Repúblicas não existiriam ainda.
Contudo, admite-se que, desde há muito, os escolares viessem respondendo à escassez de alojamento com formas diversas de partilha, entreajuda e vida comunitária, aproveitando as casas que tanto D. Dinis como D. João III mandaram construir, as deste último rei com vocação para albergar oito a dez estudantes, como bem explica Artur Ribeiro (2), autor que, no entanto, não nos apresenta testemunhos concretos sobre a forma de viver nesses tempos mais remotos. Mas já em tempos mais recentes, é o mesmo Artur Ribeiro que escreve, a dado passo (2)«Ribeiro Sanches, em 1763, traça-nos o seguinte quadro: “Cada dois ou três estudantes têm uma ama, um e, às vezes, três criados;(…)”. Este autor estará a referir-se a pequenas comunidades de escolares com certo poder económico porque, outras comunidades haveria em que o número de estudantes seria bem superior. Uma análise cuidada dos registos de matrículas dá-nos, para esta época, um número médio de cinco residentes, nos casos de habitação partilhada. Todavia, Ribeiro Sanches introduz um novo elemento, a figura da “ama” que estará muito próxima da serviçal ou “servente” das “Repúblicas” do Século XX.»
Muitos estudantes se albergavam ainda na vintena de colégios das ordens religiosas que, depois da transferência da Universidade para Coimbra com D. João III (1537), foram sendo construídos na Rua da Sofia e na Alta. Porém, chegados a 1834, Joaquim António de Aguiar – o "Mata Frades", aquele que ocupa hoje o centro do Largo da Portagem mas que ocupava à época o Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça – avançou com o decreto de extinção das ordens religiosas, confiscando todos os colégios, conventos, mosteiros, hospícios e demais edifícios que àquelas ordens pertenciam.

E foi este, segundo diversos estudiosos, o clique que fez nascer as Repúblicas! 
Com o fim dos colégios, a pressão sobre o alojamento aumentou mais ainda e grupos de estudantes terão ficado, de um dia para o outro, sem o seu aboletamento garantido. Mas a necessidade aguça o engenho. E a malta, liberta de tutelas, parte decididamente para a autogestão, organizando-se por conta própria e governando as suas casas à maneira de uma República – quem nada é o povo, que elege os seus chefes! – que os ventos de mudança vinham de França, sob a égide dos princípios Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
Estávamos em meados do séc. XIX. Nasciam as Repúblicas, mas Portugal era ainda uma monarquia! Chamar a essas casas simplesmente "República" seria demasiado desafiador. Mas "Real República", sendo uma forma dúplice, já agradaria a todos: aos de fora da casa, que entenderiam que, se a República era "Real", não ofendia a ordem monárquica; e aos de dentro, para quem o "Real" quereria dizer que se tratava, realmente, de uma República, fundada e governada pelos próprios, sem ter de dar cavaco fosse a quem fosse.

E esta questão de "não ter de dar cavaco" – a autonomia das Repúblicas – é algo que está na sua essência, no seu ADN, que me parece nem sempre ter sido devidamente valorizado em análises que tenho lido sobre a história das Repúblicas. Porque uma República não é um lar de estudantes! Não foi fundada pelo reitor, nem pelo bispo nem pelo rei. E é por isso que não comungo da opinião de que tenha sido D. João III quem instituiu as primeiras Repúblicas (para mim, um contra-senso; as Repúblicas são fundadas pelos próprios repúblicos)! Nem percebo que as raízes das repúblicas possam estar em D. Dinis (uma República é muito mais do que um aboletamento partilhado)!

Como qualquer ser vivo, as Repúblicas nascem, vivem e morrem. Mas perduram no tempo para além do tempo universitário dos seus fundadores e continuadores mais próximos. Sem os esquecer, ganham vida própria. 
Gonçalo Reis Torgal (3) conta-nos que a denominação das primeiras Repúblicas estava ligada à origem dos seus repúblicos (Repúblicas Ribatejana, Transmontana, Minhota, de Tomar…) ou ao local da sua instalação (Repúblicas da Estrela, dos Grilos, da Matemática, das Cozinhas, dos Palácio Confusos…), só mais tarde aparecendo os nomes humorísticos que chegaram até aos dias de hoje. Mas, ainda no meu tempo, muitas das Repúblicas (ou Solares) agrupavam gente de proveniência comum: os 1000-y-Onários e o Kimbo dos Sobas tinham estudantes de Moçambique e Angola; no Rapó-Taxo a malta era de Cantanhede, enquanto na Bamus-ó-Bira e na Boa-Bay-Ela vinha do Minho; os Corsários da Ilhas vinham dos Açores, sendo o Farol da Ilhas de malta da Madeira.
Também eu vivi numa Real República "de Coimbra", durante 3 anos. Só que essa Real República se situava – e se situa ainda – no Porto: a Real República do Ly-S.O.S., fundada por universitários de Coimbra que iam ao Porto terminar os seus cursos de Engenharia e Farmácia, República que brilhou a grande altura no contexto das Repúblicas do Porto e que é hoje o único espécime naquela cidade.
A Real República do Ly-S.O.S. festeja este sábado e domingo o seu LII Centenário! 52 anos é obra! Lá estarão em convívio inter-geracional os actuais repúblicos e os «velhinhos», os fundadores e as gerações intermédias. Porque uma República é património de todos os que nela viveram, ainda que as decisões caibam apenas aos que nela hoje vivem. E não é apenas uma casa onde se vive em comunidade. É uma instituição viva, que em muitos casos sobrevive à mudança da própria casa (os Ly-S.O.S. vão na quarta). Porque uma República não tem apenas corpo. Tem alma!
Não podendo este ano estar no Porto com a família Lysa, daqui me junto em uníssimo num sonoro F-R-A!, gritando convosco: –  É malta Ly!!!...   S.O.S.!!!
Zé Veloso
PS - A Real República dos Ly-S.O.S. foi inaugurada com pompa e circunstância em 18 de Novembro de 1959. A foto abaixo foi tirada nesse dia, com os fundadores (falta um) e as duas madrinhas na varanda do primeiro prédio que acolheu a República. Alguns dos nomes têm uma especial relação com Coimbra: Jorge Anjinho, que foi presidente da AAC-OAF; Júlia Condorcet, filha do radiologista Dr. Pais Mamede (Condorcet, the King os Embarrilation), famoso ilusionista amador; Augusto Carmona da Motta, filho do célebre Pantaleão, companheiro inseparável do boémio Castelão de Almeida.


Nota: Este post, publicado inicialmente em 18/11/2011, foi revisto em 09/09/2017.


(1) «Sistema das Precisões» in Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, Nona Edição (de harmonia com a quarta, de 1792), Coimbra Editora, 1942.
(2) RIBEIRO, Artur. «Perspectiva histórica da República de Coimbra» in Rua Larga, UC, http://www.uc.pt/rualarga/anteriores/19/16.

(3) TORGAL, Gonçalo Reis. Coimbra, Boémia da Saudade, vol II, Edição do autor, 2003.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DAS LATADAS À FESTA DAS LATAS (Parte II)

Parte II: As latadas do início do ano lectivo. A imposição de insígnias

    Vimos na ParteI deste tema que as latadas do final do ano lectivo, coincidentes com a emancipação dos caloiros, terminaram por volta de 1935.

    Mas como lata faz barulho e barulho é sinal de festa, as latadas voltaram no final da década de 40, continuando pelos anos 50 e 60. Só que, desta vez, aconteciam no início do ano lectivo e estavam ligadas à imposição de insígnias: aos quartanistas que, a partir desse dia, poderiam colocar na pasta o grelo que tinham posto na lapela na Queima do ano anterior; e aos quintanistas que, tendo posto fitas na Queima anterior, podiam agora exibi-las até à Queima seguinte.

    As latadas eram 5, uma por cada Faculdade de então – Medicina, Direito, Ciências, Letras e Farmácia – e aconteciam, não necessariamente por esta ordem, às quartas e sábados, depois de terminados os exames de Outubro. Os cursos de Matemáticas, Engenheiro Geógrafo e os Preparatórios de Engenharia, todos eles com insígnias azul clara e branca, alinhavam na latada de Ciências.

    Para os quartanistas grelados, os jovens lobos que iriam iniciar o seu ano de glória, a manhã começava muito cedo, com a visita ao mercado D. Pedro V. Era o reencontro entre os estudantes e as vendedeiras de hortaliça, a pretexto da compra de um nabo de rama farfalhuda que se metia na pasta onde o grelo florescia pela primeira vez. Dali saíamos a cantar uma lenga-lenga já caída no esquecimento da Academia de hoje,

          Meu nabo, meu grelo
          Sinto prazer em tê-lo
          Que não há nada mais belo
          Que o grelo do nabo
          Que o nabo do grelo
enquanto, pela cidade, se ouvia já ao barulho dos Zés Pereiras e do foguetório.

    Estes ritos eram automáticos e ninguém se questionava. Mas eu coloco a questão agora: Por que carga de água se chamará «grelo» à fita estreita? E que relação intrigante era esta, entre estudantes e vendedeiras de hortaliça, que levava os primeiros, no ano que representava o zénite da sua passagem por Coimbra, a ter como primeiro acto, após a imposição do grelo, uma visita ao Mercado D. Pedro V?

    António Rodrigues Lopes (A Sociedade Tradicional Académica Coimbrã, 1982) parece trazer-me a resposta em quatro escassas linhas: O “grelo” seria a reminiscência de um molho de bróculos que floresceu de uma greve de hortaliceiras que a academia, solicitada, secundou. Surgiu deste modo, como símbolo heráldico de reivindicação contra a truculência da Câmara Municipal (in “À Porta Férrea”, de Serrão Faria).

    A greve a que se refere ARL ficou conhecida pela «Revolta do Grelo». Foi uma insurreição muito séria, que durou vários dias e chegou a envolver 10.000 manifestantes, juntando estudantes e futricas do mesmo lado da barricada. Vamos aos factos: Em 11 de Março de 1903, insurgindo-se contra o aumento do imposto do selo, as vendedeiras de hortaliça do Mercado D. Pedro V entraram em greve, no que foram secundadas pelo comércio e operariado da cidade, ficando Coimbra sem abastecimentos por alguns dias. Seguiram-se tumultos vários e a intervenção das forças da ordem, vindas de fora, a qual se saldou por quatro mortos e vários feridos entre os populares e um morto entre os soldados. A Academia reuniu, declarou-se incondicionalmente ao lado do povo de Coimbra e organizou uma recolha de fundos para auxiliar as famílias das vítimas. O Governo encerrou a Universidade a 14 de Março e determinou que todos os estudantes não residentes saíssem de Coimbra, mas poucos arredaram pé. As aulas só reabririam a 20 de Abril.

    Será que a ida ao mercado era o ritual inconsciente de um encontro que se repetia, por uma aliança forjada sessenta anos atrás entre os estudantes e as vendedeiras de hortaliça? E será que a denominação de «grelo» é alheia a tudo isso?

    À tarde tinha lugar a latada propriamente dita. Era um cortejo trapalhão, com alguns zabumbas à mistura, que seguia o mesmo trajecto do cortejo da Queima. Para além dos grelados e fitados, de capa e batina e insígnias, desfilavam os caloiros que tivessem sido mobilizados, razoavelmente mascarados, tipicamente de pijama ou com o casaco do dia-a-dia vestido do avesso e as calças arregaçadas. Poucas latas havia, para além duns quantos penicos de esmalte, baixela indispensável das praxes coimbrãs. As greladas e fitadas seguiam na latada mas as caloiras não eram mobilizáveis. Os caloiros, que podiam pertencer a qualquer curso, ou seguiam ao serviço de um doutor que fizesse questão de levar o seu «animal de estimação» – eu levei um caloiro que me chegava um penico para aparar a cinza do cigarro e me estendia uma passadeira de cada vez que decidia ir cumprimentar um conhecido na assistência – ou faziam parte da legião de porta cartazes, a função mais chata mas também mais digna, já que os cartazes eram o prato forte da latada; e uma latada se dizia boa ou má consoante a piada, a classe e o atrevimento dos seus cartazes.

    Em época de censura, tudo era dito por meias palavras, por frases cândidas que escondiam malandrice, por frases banais cujo arranjo gráfico poderia sugerir muito mais do que uma banalidade: Numa altura em que a palavra «Salazar» logo levantaria suspeitas, poderia o «sal» estar no início da frase e o «azar» no final dela mas escritos com uma cor que os realçasse. Aí, a censura, ou não entendia de todo ou não encontrava forma de cortar, fazendo-se, então, desentendida.

    À noite a festa terminava no Tetro Avenida, já que os seus proprietários deixavam entrar de borla grelados, fitados e caloiros mobilizados, numa balbúrdia tremenda, um autêntico salve-se quem puder na busca de um lugar. O Avenida ficava cheio que nem um ovo, do galinheiro às coxias. Enquanto decorriam os documentários, ainda os porteiros tentavam controlar as entradas. Mas mal rugia o leão da Metro, a malta que ainda estava cá fora, como que galvanizada pelo ronco do bicho, logo fazia saltar os porteiros do lugar antes que fossem as portas a saltar dos gonzos.

    O filme era quase sempre mauzinho, ainda que, na minha latada, tenha sido o West Side Story, que nos deixou mudos de espanto. Claro está que mal o Richard Beymer (Tony) começou a cantar «Maria, Maria, Maria…», logo do galinheiro alguém pediu uma bolachinha e estalou a gargalhada geral… Ai, aquele galinheiro! Empoleirados junto ao tecto, mal enxergavam o ecrã! Mas quando aparecia um decote mais generoso, logo gritavam para a plateia que dali é que se via tudo.

    E hoje em dia como é? Acabadas as Latadas, aí temos a Festa das Latas, com algumas diferenças importantes mas não diferindo no essencial, ou seja: uma festa que acontece no início do ano lectivo e que está associada à imposição de insígnias dos novos grelados e fitados. Aliás, a denominação oficial da festa deste ano é «Festa das Latas e Imposição de Insígnias 2011». No entanto, ela serve também para mostrar os caloiros à cidade e promover o seu baptismo.

      Mas o que há, então, de diferente?

    Desde logo, um cortejo único. Se assim não fora, com o actual número de Faculdades (8) mais os Politécnicos e outras escolas de ensino superior (mais 8) teríamos latadas até ao Natal. Mas se o cortejo é único, o grosso da festa prolonga-se por quase uma semana, fora os preliminares, uma série de «inventos» que a malta organiza, desde concursos literários e fotográficos a torneios desportivos e peddy-papers, passando por uma caça ao tesouro em Conímbriga e por umas olimpíadas do conhecimento sobre Coimbra e a vida académica. São «inventos» que têm para o caloiro que chega uma função integradora muito mais eficaz do que as mais que estafadas praxadelas do tipo brincadeiras bobas no meio da rua.

    A abertura oficial das Festas é marcada por uma serenata que tem lugar às zero horas de quarta para quinta, sem local fixo mas que se pretende não seja na Sé Velha. Já foi no Largo da Sé Nova, à Porta Férrea e na Praça Velha. Gosto da ideia de abrir as festas com uma serenata, acarinhando e perpetuando os fados e guitarradas de Coimbra. Mas agradar-me-ia mais que a serenata fosse sempre na Alta, já que é lá o seu espaço natural, por ser na Alta que reside a fonte de todas as tradições académicas. Mas se até o Hilário cantava no Choupal, conforme reza o fado que tem o seu nome, quem sou eu para condenar uma serenata na Baixa?

    Como sucedâneo de luxo dos filmes no Teatro Avenida temos as noites no Queimódromo / Praça da Canção, com um cartaz de «show business» à escala dos nossos dias, do poder de compra dos estudantes de hoje e dos interesses comerciais que se movem em torno das festas académicas, onde cada vez a cerveja mais escorre e o INEM mais acorre.

    Mas é no cortejo de terça-feira – cerne praxístico das festas – que eu encontro mais novidades: desde logo, qualquer estudante universitário pode desfilar, ainda que apenas os grelados levem consigo as insígnias; e os caloiros no cortejo são agora de ambos os sexos, já que as caloiras podem ser mobilizadas pelas doutoras. Aliás, penso que a entrada da mulher em peso naUniversidade terá sido a mola impulsionadora da mudança. Embora mantendo ainda um cunho reivindicativo e crítico, o cortejo ganhou uma alegria que não tinha no meu tempo, mais se assemelhando a um desfile carnavalesco, onde cada curso canta o seus hinos e faz as suas coreografias, com os caloiros e caloiras vestidos com fantasias de cores garridas.

    Para além disso, existem dois conceitos completamente novos, cuja origem desconheço: o baptismo de caloiro e o morder do nabo. Quanto a este último, os caloiros, durante o cortejo, têm de ir mordendo os nabos dos grelados, cuja rama é mais tarde atirada ao Mondego. Quanto ao baptismo, cada caloiro/caloira escolhe, entre os doutores, um padrinho/madrinha de baptismo (ver Nota no final). Chegados ao largo da Portagem, a turba dirige-se para essa enorme pia baptismal que dá pelo nome de Mondego e, fazendo-se uso dos penicos que cada caloiro transportou consigo durante o cortejo (conjuntamente com uma chupeta descomunal), vai de mandar pela cabeça da caloirada abaixo – «in nomen solenissima praxis caloiro(a) baptizado(a) est»! – um chapadão de água do rio que, embora não me constando que seja benta, tem a propriedade de curar na hora uma boa parte das borracheiras em que o cortejo é fértil. Tudo previsto!

    Deixei para o fim a visita ao mercado D. Pedro V, onde se introduziu, há já mais de uma década, a triste ideia de que a tradição impunha que o nabo fosse roubado e não comprado. Em 1/11/2000 li no Diário de Coimbra uma exortação do Conselho de Veteranos, lembrando que o nabo é para ser comprado e não roubado. Mas, sete dias mais tarde, o mesmo jornal anunciava, como fazendo parte do programa oficial da latada, o «Roubo do nabo»… Distracção? Gato escondido com o nabo de fora?

    Estive em Coimbra há poucos dias e falei com várias vendedeiras do mercado que me disseram que já se rouba menos… mas ainda se rouba! É uma pena. E é indigno de um estudante, que assim se diverte no que é o trabalho dos outros.

    Faço votos para que este estúpido costume – o roubo do nabo – caia rapidamente em desuso. Seria uma pena que, por brincadeiras inconscientes, fosse posta em causa uma aliança tão bonita e tão antiga. É que os estudantes de Coimbra aprenderam a ir ao mercado abraçar as vendedeiras muito antes dos políticos. E não o fizeram para caçar votos, mas sim por solidariedade.

    Nota: A escolha de um padrinho pode ser inspirada nas descrições do Palito Métrico, que nos transmitem que era frequente os caloiros colocarem-se sob a protecção de um veterano “lá da terra” ou que lhes tivesse sido recomendado.

    Zé Veloso


Nota: A fotografia acima é pessoal e não deverá ser reproduzida.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DAS LATADAS À FESTA DAS LATAS (Parte I)

Parte I: As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros
    Daqui a pouco, quando passar da meia-noite de quarta para quinta, começará no largo da Sé Nova a serenata que irá marcar o início da Festa das Latas, cujo ponto alto coincidirá com o corteja da Latada, na próxima terça-feira. Nos próximos dias o Queimódromo encher-se-á de malta para assistir aos concertos de um cartaz que, venha quem vier, será sempre um bom pretexto para manter a animação durante esta espécie de mini-Queima de Outono.
    Quem tenha passado por Coimbra nas décadas de 50/60 e não mais tenha tido contacto com a vida académica da cidade, deverá abrir uma boca de espanto perante a notícia que acabo de dar: – Festa das Latas em lugar de Latada? Serenata? Noites no Queimódromo? Cortejo único? Fará depois um encolher de ombros e dirá que «a tradição já não é o que era». Nada de mais errado! As praxes académicas de Coimbra sempre evoluíram ao longo dos séculos, o que me leva antes a dizer que «a tradição nunca foi o que foi»!
    Aliás, é esta capacidade de adaptação a novas realidades – Bolonha, aumento do número de Faculdades, presença maioritária das raparigas, novos contextos socioculturais… – que tem permitido às praxes manter-se vivas, já que são vivenciadas e não apenas representadas. Custa-me ver alterações gratuitas da tradição, sem causa que as justifique que não seja a ignorância. Mas quando as adaptações aos novos tempos são feitas de forma inteligente e no respeito pelo passado… só tenho de aplaudir.
    As Latadas – ou Festas das Latas, como agora são chamadas, retomando uma terminologia já antes utilizada por Trindade Coelho – são, porventura, dentro das diversas manifestações praxísticas de Coimbra, as que mais transformações sofreram, tanto na forma, como no significado/objectivo. Vamos a isso:
    Trindade Coelho (In Illo Tempore, 1902) conta que, no seu tempo (1880-1885), as coisas se passavam assim: … as aulas de Direito fechavam-se nesse dia, e à noite, como era da tradição, a rapaziada tinha de sair pelas ruas de Coimbra – naquela extraordinária inferneira chamada a Festa das Latas, em que cada um, incluindo os novatos (equivalente aos caloiros de hoje), que nesse dia ficam “emancipados” e já podem sair de noite sem protecção, arrasta atrás de si as latas que pôde ir juntando durante o ano, ou as que comprou na «feira das latas» aos garotos, que vendem uma banheira velha por um pataco e três cântaros de «folha» por um vintém!
    Essa é a tremenda noite de Coimbra, em que ninguém prega olho – troça aos estudantes das outras Faculdades, que ainda têm aulas no dia seguinte –, e que uma vez obrigou a fugir não sei que inglês «touriste», que berrava de mala na mão, a correr para o caminho-de-ferro, – Doidos! Doidos! Doidos varridos!
    A descrição de Trindade Coelho é consistente com outras da mesma época. As latadas do Séc XIX – só Trindade Coelho lhes chama «Festa das Latas» – estavam ligadas ao facto de nem todas as Faculdades terem o mesmo dia do ponto (último dia de aulas), o que levava os alunos já libertos das aulas a caçoar dos restantes, através de cortejos barulhentos que os não deixassem estudar ou dormir em paz. Para além disso, os caloiros que iam tendo o seu dia de ponto emancipavam-se nessa mesma noite.

    Mas a tradição das latadas poderá ter vindo mais de trás e ter alguma relação com as «Soiças» (cortejos trapalhões e barulhentos que foram proibidos em 1541, em face dos desacatos que provocavam). Esta relação é estabelecida tanto por Hipólito Raposo (Coimbra Doutora, 1910) como por Teófilo Braga (História da Universidade de Coimbra… Tomo I, 1982), sendo que este último atribui às latadas igualmente a denominação «Tocar das Latas».
    Com a Reforma de 1901 todos os cursos passaram a terminar as aulas ao mesmo tempo, deixando de haver razão para a troça. Mas as latadas continuaram, centradas agora na emancipação dos caloiros, ainda que com intermitências que, segundo Reis Torgal (Boémia da Saudade, Tomo II, 2003) se ficaram a dever a diversas convulsões políticas e académicas, à I Grande Guerra e à pneumónica. Sobre este período, há uns quantos depoimentos publicados em livro, deles se percebendo que, para além de variantes várias, nunca o essencial se alterou: caloiros a correr por Coimbra afora que nem loucos, debaixo de um barulho infernal, protegidos da praxe por tudo quanto fosse elemento metálico barulhento, atado por barbantes ou arames aos tornozelos, à cintura ou aos pulsos, em busca de uma emancipação que chegaria no final da corrida. Pelo caminho – fosse ele da Porta Férrea à Portagem ou de Santa Clara até à Porta Férrea – lá estavam os doutores de piquete, munidos de bengalas e mocas, tentando fazer soltar as latas, na expectativa de uma imediata rapadela daqueles que perdessem o seu «escudo protector». Como em todas as estórias com final feliz, há notícias de confraternizações e abraços entre uns e outros no final da refrega.
    As latadas foram a dada altura transferidas para 27 de Maio e integradas nos festejos da Queima das Fitas. Branquinho da Fonseca, formado em 1930, conta-nos (Porta de Minerva, 1947) que havia no seu tempo duas formas de um caloiro obter a alforria: ou submeter-se à latada ou seguir no cortejo, no carro de um quartanista. Não é de estranhar: somos um país onde sempre houve duas vias para tudo…
    Por artes que nunca ninguém me conseguiu explicar, mas que poderão ter a ver com a barbaridade do ritual e a sua progressiva desadequação à evolução da sociedade, as latadas emancipadoras dos caloiros desapareceram de cena por volta de 1935 e os caloiros passaram a emancipar-se de forma menos selvática, tal como eu o fiz em 1963: chegado o cortejo da Queima à Portagem, pedi a uma madrinha que me tirasse com jeitinho os adesivos da testa, onde as marcas de mercurocromo deixavam antever as supostas cicatrizes da recente amputação de um valente par de cornos.
    Terminada a época das latadas do final do ano lectivo, emancipadoras dos caloiros, iniciou-se, uma década mais tarde, a época das latadas do início do ano lectivo, ligadas à imposição de insígnias. Mas essa estória fica para o próximo «post».
    Zé Veloso

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CONJUNTOS ACADÉMICOS DA COIMBRA ANOS 60

Faz hoje duas semanas que faleceu o Zé Niza. A notícia atingiu-me, naquela manhã de sexta-feira, como uma pedrada que entra pela janela do carro. E enquanto o locutor resumia a sua vasta obra, o seu enorme talento de músico e compositor, a par de uma carreira multifacetada, da medicina à política, da gestão de programas de TV à produção discográfica, eu recordava a sua simplicidade e desprendimento, o contacto afável e a disponibilidade com que, na Coimbra dos anos 60, o Zé dava dicas aos músicos mais novos; ele, que era já um "senhor" na guitarra de jazz.

Estávamos em 1968/69. Os Álamos iam gravar dois singles de 45 rotações para a Sonoplay e precisavam de canções inéditas. Para um conjunto yé-yé à boa maneira da época, cantar em português cheirava a bafio, a pó-de-arroz, a nacional-cançonetismo… O Chico Fininho estava ainda para nascer e o grande êxito dos Sheiks era o Missing You. Por isso, os temas seriam cantados em inglês.  Mas tínhamos decidido que uma das faixas a gravar seria cantada simultaneamente em português e inglês, à maneira do Chove chuva do Sérgio Mendes & Brasil '66.
Ao lado, capa do single Sonoplay SP 20.002 - 1969, com "Peter and Paul" e "Flip Side"


A música era do Rui Ressurreição e estava já pronta, depois de uma tarde passada a partir pedra na sala de ensaios que ocupávamos na ala nordeste do edifício da Associação Académica. Faltava a letra e o Rui sugeriu que a pedíssemos ao Zé Niza ou à Isabel, sua mulher, cuja formação em Germânicas facilitaria a escrita bilingue. Lá mais para a noite, estávamos no Mandarim, o café onde sempre poisávamos, numa das mesas debaixo das escadas que ligavam ao andar de cima. Chega o Zé Niza, ouve o trautear da melodia – muito simples, como era timbre da época – pede-se um guardanapo ao Sô Talina e, enquanto se beberrica mais um fino, é esboçada a letra em português, que viria a ser parcialmente retrovertida pela Isabel e a receber o nome de Peter and Paul. Aqui ficam as duas primeiras quadras:

          I don't know the reason

          Tell me what to say
          While Peter is hungry
          Paul eats everyday


          Eu não sei porquê
          Não sabe ninguém
          Se Paulo tem casa
          Seu irmão não tem


Completamente ao lado do que eram os standards de um conjunto yé-yé, mas perfeitamente alinhada com as preocupações de quem viria a escrever na sua autobiografia: «Agradeço à vida o que me deu. Não tenho livro de reclamações a não ser para lutar pelos direitos dos pobres, dos humildes e para que haja mais justiça e solidariedade em Portugal.» Não há qualquer dúvida – Zé Niza era um produto da Coimbra solidária dos anos 60, da Coimbra onde germinou a canção de intervenção que viria a dar os seus frutos na década de 70.

O Zé Niza começou a acompanhar fado de Coimbra à viola, arte que trazia de Santarém. Mas cedo resolveu experimentar a guitarra eléctrica, tendo sido fundador da Orquestra Ligeira do Orfeon Académico de Coimbra, no rodar da década de 50 para a de 60, com António Portela (no acordeão) e outros. À data em que os conheci, por volta de 1964, o conjunto estava no auge. Tinha, então, para além do Zé Niza na guitarra eléctrica, o Rui Ressurreição (pianista, xilofonista e acordeonista de mão-cheia, admirador do Sivuca)o Joaquim Caixeiro na bateria, na viola-baixo o Daniel Proença de Carvalho (que me lembro de ver num Sarau da Queima a cantar música mexicana no Trio Los Dos, assim chamado por haver sempre um que faltava aos espectáculos) e, como vocalista, o Zé Cid, que cantava igualmente naquele trio. Era um quinteto com o instrumental e o repertório típico da transição da década de 50 para a de 60. Interpretavam música brasileira, italiana, francesa, americana… Eram exímios nos arranjos vocais e muito bons no jazz e na bossa-nova. Estávamos na época de O Pato e do Desafinado.
Foto tirada nos estúdios da RTP, numa fase em que António Portela ainda fazia parte do grupo e em que José Niza tinha interrompido os estudos, sendo Proença de Carvalho o guitarra. São eles, a partir da esquerda: António Portela, Joaquim Caixeiro, Rui Ressurreição, José Cid e Daniel Proença de Carvalho.

Mais tarde, os quatro instrumentistas da Ligeira do Orfeão formaram o Quarteto de Jazz do Orfeon. Mário Castrim, o verrinoso crítico televisivo do Diário de Lisboa, tentou deitá-los abaixo por não conceber um quarteto de jazz sem metais e com guitarra eléctrica, o que muito enfureceu o Zé Niza, que lhe remeteu de presente uma lista de consagrados quartetos de jazz com idêntica formação.

Quanto ao Zé Cid, o único que viria a enveredar pelo profissionalismo e que deixou Coimbra mais cedo para frequentar o INEF (Instituto Nacional de Educação Física), em Lisboa, fora já pianista, acordeonista e vocalista dos Babies, conjunto que viveu entre 1958 e 1960, e que poderá ter sido a primeira banda rock portuguesa. Os Babies contavam ainda com António Portela (acordeão e piano), António Igrejas Bastos (bateria, voz e contrabaixo), Rui Nazareth (guitarra eléctrica), aparecendo, também, Luiz Cabeleira na bateria.
Na foto, a partir da esquerda, António Portela, Luiz Cabeleira, José Cid, Igrejas Bastos e Rui Nazareth.



De 1960 a 1962 foi a era dos TigresCom Abílio Soares no contrabaixo e Zé Carlos Nascimento Costa na bateria, tinham como pianista Amândio Cruz, como acordeonista António Oliveira Santos e, na guitarra eléctrica, o Frias, que tocava o Guitar Boogie como ninguém mais em Coimbra. Curiosamente, o Frias, que conheci agarrado à guitarra eléctrica, viria depois a abraçar a guitarra de Coimbra, ficando mais conhecido por Frias Gonçalves.
Na foto, os Tigres no Café Nicola em 4/2/1961. A partir da esquerda: Abílio Soares, Aroso (técnico de som), António Oliveira Santos, Amândio Cruz, Frias e Nascimento Costa.




Mantendo o mesmo tipo de instrumental mas sem contrabaixo (que já nos Babies nem sempre era utilizado), surge, no início do ano lectivo de 1962/63, pela mão do pianista Nelson Martins, mais um grupo académico, Nelson Martins e seu Conjunto, o qual tem como acordeonista uma rapariga  Marinela , hoje Marinela St Aubyn  facto inédito em Coimbra, onde o meio académico-musical era essencialmente masculino. O conjunto contou com inúmeras actuações, dentro e fora de Coimbra, dado que, por essa altura, a procura começava a crescer. Do conjunto faziam ainda parte o Frias (ex-Tigres) na guitarra eléctrica e o Humberto Cordeiro como vocalista; na bateria sentava-se o Braga da Cruz, que deixou, mais tarde, o lugar ao Zé Pereira.
Nelson Martins e seu Conjunto nas Patelas. A partir da esquerda, no plano superior da foto, Braga da Cruz e Marinheiro (amigo do grupo); no plano inferior, Nelson Martins, Marinela e Frias.

Também por esta altura, 1962/63, apareceram os Beatniks, conjunto que não terá durado mais do que um ano. Nele tocaram o Rui Ferraz ao piano, o Abílio Soares (ex-Tigres) no contrabaixo, o Maia de Carvalho na bateria e, na viola, nada mais nada menos do que o Rui Pato , mais conhecido por ter acompanhado Zeca Afonso durante largos anos mas que não deixou de fazer, também ele, uma perninha nos conjuntos de baile.

Lembro-me ainda dos Alybaba e do Conjunto Braga da Cruz, que tinham como líder o Armando Braga da Cruz (ex-Nelson Martins) e a que pertenceram o Ivo, o Aragão, o Marinheiro e o Victor Ferreira.

Mas poucas referências tenho do conjunto onde tocava o Cabeleira e seu irmão mais novo (um putozito), conjunto que me parece ter tocado no baile de estreia dos Álamos no salão da FNAT, à Estação Nova.

E não gostaria que ficasse esquecido o papel precursor dos Conjuntos Ligeiros da Tuna (anos 50) do Orfeon Misto, os quais foram perdendo importância, acabando por desaparecer, à medida que iam surgindo os conjuntos académicos "independentes", cuja dinâmica não conseguiram acompanhar.


Fechando o ciclo dos conjuntos com a formação "clássica" – piano, acordeão, guitarra eléctrica, contrabaixo, bateria e vocalista – é hora de falar dos Scoubidous. Começaram muito novos, ainda no liceu, estávamos no início de 1961, e manter-se-iam por 6 anos. Na época do twist, rock e slow-rock, ritmos que eles interpretavam na maravilha, nos seus smokings reluzentes, cheios de estilo, tinham um repertório muito alegre e variado. O maior êxito que lhes recordo é o Sabeline. O grande maestro era o Tozé Albuquerque, o pianista. Tinham o Zé Tó à bateria, um tipo com ar malandreco que usava uns óculos escuros estreitinhos, que viriam décadas mais tarde a ser copiados pelo Pedro Abrunhosa (se é que ambos os não foram copiar ao baterista do Conjunto Académico do Porto, Toni Hernandes). No contrabaixo e acordeão eléctrico estava o meu colega de curso (em Coimbra e no Porto) António Santos Andrade, enquanto na guitarra eléctrica (de caixa semiacústica, à Elvis Presley) tocava o seu irmão Zé, que um belo dia foi proibido pelo clínico de fazer coros, abrindo-se ao Alberto Velho Nogueira – "Alberty Pente" – a oportunidade de entrar para o grupo e fazer depois uma perninha de saxofone. Deixei para o fim o vocalista (e, quando necessário, contrabaixista) Júlio Maia, também conhecido por "Júlio Scoubidou", brilhante a interpretar em qualquer língua. Talvez por ser aluno de Letras, tirava minuciosamente as letras das canções ao gira-discos, com uma trabalheira danada, sendo, porventura, o único vocalista daquela época que as não aldrabava. Era o início dos anos 60 e só muito mais tarde os discos começaram a trazer consigo as letras.
Na foto, ainda antes dos smokings reluzentes, numa indumentária muito jovial: a partir da esquerda, Tózé Albuquerque, José Santos Andrade, Júlio Maia, Zé Tó (José Augusto) Gouveia e António Santos Andrade.


Estávamos em 1962, às voltas ainda com Bill Haley & His Comets, Paul Anka, Marino Marini e Françoise Hardy, quando nos chegam de Inglaterra os ecos de Cliff Richard and the Shadows a tocar The Young Ones e, de França, o som dos Les Chats Sauvages com Est-ce que tu le sais e Twist à Saint-Tropez. Foi a revolução! O piano tinha ido às malvas! O contrabaixo, atirado para o lixo, dava definitivamente lugar à guitarra-baixo. Toda a força estava agora em três guitarras eléctricas sem caixa de ressonância  os "bacalhaus" –, ora "rockeiras" ora roçando uma maviosidade piegas, secundadas por uma bateria e um vocalista. Quase em simultâneo, chegavam-nos os Beatles, com o mesmo instrumental mas onde a função do vocalista era desempenhada pelos três guitarras, que berravam desalmadamente: yeah, yeah, yeah! Entrávamos, assim, no reino dos conjuntos yé-yé!

Coimbra não perde a oportunidade… e surgem Os Álamos, conjunto composto apenas por universitários, com prevalência das Engenharias, que viria a ser o conjunto de Coimbra mais disputado para tudo o que fosse baile por esse país fora, das passagens de ano aos Carnavais e à Queima, dos finalistas de liceu aos bailes das Faculdades, de Chaves a Faro, do Casino do Estoril ao Hotel Savoy na Madeira. Os Álamos formaram-se no primeiro trimestre de 1962/63, estrearam-se no início de 63 e duraram quase até ao final de 68/69. Com forte componente vocal nos seus arranjos musicais, eram especialmente dotados na música Beatle, mas tocavam tudo o que estivesse a dar (desde que não fosse nacional-cançonetismo), do slow para constituir família ao rock mais assanhado.
Foto tirada em 63/64 no varandim do Bar das Medicinas. A partir da esquerda, de pé: Zé Veloso e Chico Faria; abaixados: Luís Colaço, Nuno Figueiredo e Duarte Brás
.

Apesar de serem um dos melhores conjuntos de baile nacionais, pedindo meças aos grupos profissionais com que alternavam, o primeiro disco saiu mauzinho. Sendo obrigados pela editora a incluir um tema em português, gravaram O Comboio, música oferecida pelo Zé Cid, que o conjunto nunca mais tocou mas que é a única que vai passando na rádio. Razão tinha a editora...
Capa do EP da Rapsódia EPF 5.305. A partir da esquerda, em cima: Chico Faria, Zé Pereira e Zé Veloso; em baixo: Duarte Brás e Luís Colaço

A estrela do cartaz foi, até ser apanhado pela tropa, o Chico Faria, mais conhecido por "Chico dos Álamos" ou "Chico dos 1000-y-onários”, que, conforme dizia o Sô Chico, porteiro da Associação Académica, era «o que tocava microfone»; a forma como interpretava o I can’t stop loving you ainda hoje estará na memória de quantos iniciaram os seus namoros dançando  e declarando-se – ao som daquela música. No primeiro ano, o Chico deixava para um segundo vocalista, o Zé Gouveia, algumas das músicas em francês e italiano. Na bateria começou o Nuno Figueiredo, que abandonou o conjunto mais cedo por ter ido para o Técnico, entrando para o seu lugar o Zé Pereira (ex-Nelson Martins), que com o Chico fazia a dupla dos mais brincalhões, armando histórias e barracadas por onde o conjunto passava. Nos três "bacalhaus" que, quando necessário, gingavam em palco à maneira dos Shadows, alinharam, por via de regra: como guitarra-solo, o Luís Filipe Colaço (Phil), que viria a acompanhar Zeca Afonso em dois dos seus LP's e que ainda hoje se diverte a solar como o Hank Marvin; como guitarra-ritmo, o Duarte Brás, açoriano dos Corsários das Ilhas, que assumiu o lugar de vocalista quando o Chico foi apanhado pela tropa e que viria a formar o duo de música popular Duarte & Ciríaco; e eu próprio, Zé Veloso, que, por ter sido o último guitarra a chegar ao conjunto, fui obrigado a aprender o ofício de guitarra-baixo e ainda tinha que "fazer as séries" (o alinhamento do espectáculo, como se diria hoje). Mas bem me vinguei deles ao assumir o difícil cargo de tesoureiro, uma espécie de ministro das finanças a quem cabia cortar nos vales de caixa e demais mordomias, já que a compra dos instrumentos e aparelhagens nos obrigou a vários e penosos anos de austeridade, sem troika ou "paitrocínio" que nos resgatasse.

Naturalmente, os Álamos não foram os únicos a aderir à moda das três guitarras, tendo aparecido outros, dos quais destaco, por ordem de entrada em cena:

  • Os Lordes, onde o solista era o Nelo Brito, o viola-ritmo e segundo vocalista era o Luís Requixa (que tantas vezes me emprestou o seu casaco de cabedal para as minhas performances nos Álamos...), o baixista era o Zé Eduardo Costa,  e o baterista e vocalista principal era o Luis Monteiro. Foram o segundo conjunto de três guitarras a aparecer em Coimbra, quase um ano depois de terem surgido os Álamos. Composto por malta bastante nova, o conjunto estreou-se no Natal de 1963 e dissolveu-se em 1966;
    Foto dos Lordes no Escadote (Quinta das Lágrimas). A partir da esquerda, de pé: Luís Monteiro e Nelo Brito; sentados: Zé Eduardo Costa  e Luís Requixa
    .
  • Os Protões, grupo composto por malta do Bairro Marechal Carmona (hoje, Norton de Matos): Nóbrega Pontes na guitarra-solo, António Carlos Couceiro na guitarra-ritmo, Fernando Dias (Nando) no baixo,  Jorge Carvalho (Jó) como vocalista e, na bateria, Zézé (José Eugénio) Eliseu, neto do maestro José Eliseu, compositor da música da Balada de Coimbra; 
    Foto dos Protões. A partir da esquerda: de pé, Nóbrega Pontes, Zézé Eliseu e Jó; no primeiro plano, Nando e Couceiro.


  • Os Cocktails,  "conjunto-cometa" formado para concorrer ao Concurso Yé-Yé do Teatro Avenida em 66, concurso a que não concorreram os conjuntos já "consagrados" (Álamos, Lordes e Boys) e que os Cocktails acabariam por ganhar. Terminado o festival, não foram longe;



  • Os Pops, que juntaram malta dos Lordes, Protões e Cocktails, onde solava o Luís Romão, era viola-ritmo o Joca Colaço (que chegou a integrar os Álamos numa temporada de Verão na Madeira), era baixista o Nando, baterista o Luís Monteiro e organista (uma novidade!) o Kali (João Carlos Mota). Congregando a nata dos músicos yé-yé da geração mais jovem, tocavam de forma agressiva, bem ritmados, virados para um público-alvo teenager. Porém, tendo-se formado em 1967, o pouco tempo de vida (2 anos) não deu para deixar grande rasto fora de Coimbra;
    Na foto ao lado, a partir da esquerda, Fernando Dias (Nando), Luís Romão, Luís Monteiro, Joca Colaço (irmão do Luís Filipe Colaço dos Álamos) e Kali (João Carlos Mota)
    .
  • Os In loco, posteriores à desagregação dos Protões, compostos pelo Frederico Aguiar (guitarra-solo), pelo Jorge Gomes (guitarra de 12 cordas), pelo Tójó – António Jorge Simões – (guitarra-baixo), pelo Zézé Eliseu (bateria) e pelo Rui Mesquita (vocalista).
Porém, acima de todos estes últimos, estavam os Boys, formados em 1964, conjunto que, em determinada altura, se assumiu com challenger dos Álamos e com o qual mantínhamos uma saudável rivalidade. Os Boys – cujo nome não tinha qualquer conotação pejorativa, já que à data nem partidos políticos existiam – tinham como ponto forte uma boa parte do repertório dos Shadows, graças ao virtuosismo do guitarra-solo Carlos Correia, mais conhecido por Boris, que acompanhou mais tarde Zeca Afonso em dois LP's. De início, o vocalista era o Victor Ferreira; e também o meu cunhado António Dias Figueiredo tocava harmónica em algumas músicas. Lá estavam também o Xana Rebocho Vaz na guitarra-baixo, o Manecas (Luís Manuel Matos) na guitarra-ritmo e o Tonã Vieira Lima na bateria.
Na foto, a partir da esquerda: Carlos Correia, Tonã Vieira Lima, Alexandre Reboxo Vaz, Victor Ferreira e Luís Manuel Matos (Manecas)

Concorreram ao Concurso Yé-Yé do Teatro Monumental, em Lisboa, tendo ganho a 11.ª eliminatória em Nov/65. Um dos temas que mais gostava de os ouvir interpretar era o She's not there dos Zombies.

A malta dos Boys vivia na Cumeada, tal como eu. Ainda no liceu, sonhávamos com a possibilidade de vir a tocar em público. Numa bela noite, pelas fogueiras do S. João, ainda não havia Álamos nem Boys nem o mais que fosse, dei comigo a tocar meia dúzia de músicas com o Manecas, o Tonã e o Victor Ferreira num assim chamado "baile de sopeiras", no campo de basket dos Olivais, de onde só não fomos corridos porque, no meio da refrega corpo-a-corpo, a música era o que menos interessava a quem se espremia na pista (e as falhas de ritmo até deviam dar jeito). Tocámos então com os instrumentos do conjunto de serviço – Ilídio Martins – que era o melhor conjunto futrica de Coimbra. Foi a primeira vez que agarrei numa guitarra eléctrica e que o Tonã se sentou numa bateria, pois que, até então, eu só tocara na minha velha viola de cravelhas de madeira e ele só batera baquetas num caixote de tabuinhas.


Voltando aos Boys, de 66 para 67 o grupo apareceu transfigurado em Hi-Fi, a tocar de forma muito "profissional", com novo baterista – Tó Freitas – e a novidade de ter como vocalista uma rapariga – Ana Maria Delgado – coisa nunca vista no meio dos conjuntos yé-yé. Gravaram, então, um 45 rotações com 4 faixas – todas em inglês, como não podia deixar de ser – disco que teve a colaboração do Rui Ressurreição (órgão, piano e arranjos) e que ficou muito bom. Entretanto, saiu a Ana Maria, e o Luís Monteiro tomou o lugar do Tó Freitas, passando o Boris e o Luís Monteiro a assumir as principais despesas do naipe de vozes. Antes de se dissolverem, ainda gravaram um segundo EP.
Capa do primeiro EP, Parlaphone LMEP 1271 -1967 com "I call your name", "Back from the shore", "Three days of my lyfe" e "Words of a mad". A partir da esquerda, Boris (Carlos Correia), Ana Maria Delgado, Manecas (Luís Manuel Matos), Tó Freitas e Xana Reboxo Vaz.

E os conjuntos académicos dos anos 60 foram-se dissolvendo um após outro, à medida que os músicos iam acabando os seus cursos – ou eram chamados para a tropa – e a dança se transferia dos salões de baile, do Bar das Medicinas e dos ginásios de liceu para as boîtes e discotecas.

Os Álamos foram os mais tenazes, conseguindo viver 7 anos, tantos quantos eram necessários para terminar um curso de engenharia (6) com direito a mais 1 para os descontos. Nos últimos anos, o conjunto tinha elementos a estudar em Coimbra, Porto e Lisboa. Só dois se mantiveram desde a fundação até ao final (Luís Colaço e Zé Veloso). As baixas dos que saíam eram colmatadas com os melhores elementos dos grupos em extinção: entraram o Rui Ressurreição da Ligeira do Orfeão / Clube de Jazz, o Tózé Albuquerque dos Scoubidous, o Luizinho Monteiro, que tinha passado pelos Lordes, Pops e Hi-Fi, e o Boris dos Boys / Hi-Fi – um filho pródigo, pois se tinha iniciado nos Álamos em 63/64 – que veio cumprir o duplo papel de solista na guitarra e na voz. Foi nessa altura que gravaram dois singles, num total de quatro faixas.
Capa do single Sonoplay SN 20.191 -1969 com "It's a new day" e "Stop that game". A partir da esquerda, Luís Colaço, Rui Ressurreição, Zé Pereira, Boris (Carlos Correia), Zé Veloso e Tózé Albuquerque.


Com as novas entradas, o conjunto ganhou melhores músicos e passou a integrar também teclas (órgão em palco, órgão e piano em disco). Aumentou-se a complexidade dos arranjos. Subiram a qualidade musical e o cachê. Mas o grupo manteve-se sempre ligado à vida académica, sendo que, já no passado, tinha acompanhado em várias digressões o Coro Misto e o Orfeon Académico. E sempre terminava as actuações com I saw her standing there, tal como o Orfeon as terminava com o Amen, até ao dia em que tocámos pela última vez, talvez em Abril de 1969, num baile que não ficou na memória de ninguém. Era suposto que o conjunto terminasse em beleza na Queima das Fitas mas nesse ano não houve Queima e foi cada um à sua vida sem qualquer despedida, que os exames vinham a caminho e a profissão de músico não estava nos nossos horizontes.

No meio de tanta gente aqui citada, alguns deles músicos de primeira água, muito poucos foram os que se profissionalizaram. Que eu saiba, apenas António Portela, José Cid, Nelson Martins, Luís Romão e Luís Monteiro. É certo que, na altura, não era fácil viver da música. Mas, claramente, os objectivos pessoais não passavam por aí... e por alguma razão estes grupos se denominavam «conjuntos académicos».  

Que me perdoem os leitores, um texto que saiu mais extenso do que o habitual. Mas a morte inesperada do Zé Niza lembrou-me que outros companheiros se foram embora já. Alguns deles, porventura, sem uma palavra escrita que ficasse a recordar a sua passagem pela música que também e (tão bem) se fazia em Coimbra, pois que nem só o fado e a balada por lá se tocavam e cantavam. Foi a pensar em quantos me acompanharam e, em especial, na memória dos que nesta data já partiram, que a crónica de hoje foi escrita.

Um abraço para todos eles. E a saudade que nos deixam o Zé Niza, o Rui Ressurreição, o Manecas, o Luís Requixa, o Joca Colaço, o Nando e o Ciríaco.

Zé Veloso


NOTA: Esta crónica foi escrita inicialmente em 7 de Outubro de 2011, apenas com os dados que possuía de memória. Em Agosto de 2016, sem nada alterar ao espírito do escrito inicial, entendi dever completá-lo com dados entretanto recolhidos, quer sobre conjuntos que no texto anterior estavam em falta quer sobre nomes de músicos e outros detalhes que não tinham sido referidos ou que não estavam correctos.

Origem das fotografias:
José Niza - internet 
Orquestra Ligeira do Orfeon Académico de Coimbra, Babies, Protões, Pops e Boys - blogue IÉ-IÉ (guedelhudos.blogspot.com)
Tigres - Frias Gonçalves
Nelson Martins e seu Conjunto - Frias Gonçalves e Marinela St. Aubyn
Scoubidous - Júlio Maia
Lordes - José Eduardo Costa
Álamos - acervo dos Álamos