quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PALITO MÉTRICO. CÓDIGO DA PRAXE OU MANUAL DE ACOLHIMENTO?

    Julgo que muito poucos estudantes do meu tempo terão lido alguma vez o Palito Métrico ou lhe terão, sequer, posto a vista em cima, já que a última edição desta obra – Coimbra Editora – aconteceu no longínquo ano de 1942, ficando os estudantes das últimas décadas privados da leitura de uma colectânea que seria, pelos padrões de hoje, classificada como um best seller no seio da Coimbra académica.
    O Palito Métrico é frequentemente referido como percursor dos Códigos da Praxe dos séculos XX e XXI, uma vez que, através dos seus textos, ficavam os académicos de então a conhecer as praxes que vigoravam na Coimbra dos séculos XVIII e XIX. Mas a forma como o Palito Métrico está escrito – raramente os textos têm um carácter impositivo – assemelha-se mais a um Manual de Acolhimento, que coloca o novato ou caloiro no conhecimento do que o espera e o aconselha sobre a melhor forma de ultrapassar as dificuldades e ratoeiras da vida académica e da cidade. Muito a propósito, em vésperas da recepção aos novos caloiros!
    Mas o que é, então, o Palito Métrico? Sigamos, resumidamente, o que A. G. da Rocha Madahil nos conta no excelente prefácio da já referida Edição da Coimbra Editora.
    Em 1746 foi editado em Coimbra um folheto de 14 páginas intitulado Palito Métrico, o qual contava, em versos humorísticos, as desventuras de um novato (caloiro) que veio do país longínquo até Coimbra, para fazer matrícula e exame de entrada na Universidade. Para além de mil peripécias que lhe aconteceram pelo caminho – nas quais perdeu o macho, o farnel e o criado – mal chegou a Coimbra, o desgraçado caiu nas mãos dum grupo de veteranos que o fizeram passar tratos tais que o moço se viu obrigado a regressar à terra, chumbado e sem ter conseguido entrar para a Universidade. Mas como ao chegar a casa foi recebido em festa, não teve coragem de contar o sucedido e fez-se passar por doutor; até que, descoberto o embuste, o pai lhe passou um atesto de pancada em cima do lombo e o mandou guardar cabras.
    Este poema, já de si cheio de situações jocosas e burlescas, tinha uma particularidade que lhe ampliava a comicidade: utilizava palavras da linguagem corrente às quais era dada uma flexão latina, em frases construídas segundo a sintaxe do latim. Aí estava a "macarrónea" ou "literatura macarrónica", género literário novo em Portugal mas já praticado noutros países como Itália, França, Inglaterra e Alemanha.
    Abro aqui um parêntesis para opinar que os Decretus académicos – que ainda hoje se escrevem usando obrigatoriamente palavras latinas ou alatinadas, sendo inválidos se contiverem palavras portuguesas não isoladas – deverão ter tido a sua origem linguística na “macarrónea”. Claro está, para que sejam entendíveis por quem já nada sabe de latim, a sintaxe hoje utilizada é meio portuguesa meio latinória… “latim macarrónico”, dizíamos nós, e assim lhe chamava e chama ainda hoje o Código da Praxe!
    Logo após a publicação do poema Palito Métrico, apareceram mais uma série de outros poemas humorísticos escritos no mesmo estilo, poemas estes que passaram a ser publicados conjuntamente com aquele numa única colectânea que agregava também outros textos, em verso e em prosa, escritos em português. Desta obra-prima se publicaram pelo menos 11 edições ao longo de 200 anos, sob designações diversas, sendo a mais comum Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, abreviadamente, Palito Métrico.
    Em lado algum da obra consegui uma explicação para o insólito nome de Palito Métrico. Mas contavam-me os meus pais que havia uma praxe antiga que consistia em medir, com um palito, uma rua, uma escadaria, etc.. Coincidência?
     Quanto à paternidade de tais poemas – o primeiro e vários outros  são atribuídos ao Padre João da Silva Rebelo, bacharel em Cânones – nem sempre foi fácil decifrá-la, já que foram normalmente escritos sob nomes supostos, por estudantes que assim arranjavam um complemento de mesada. E não admira que os poemas se vendessem bem, pois que a maioria deles consiste em avisos aos novatos sobre o que os espera em Coimbra: cuidados a ter para não darem nas vistas à chegada, não serem praxados pelos veteranos, não se perderem na má vida, não serem explorados pelas amas (governantas), etc. etc.... indo ao ponto de explicar coisas tão comezinhas como a forma de poupar dinheiro no barbeiro, comprando uma navalha de barba para uso próprio. Até porque, como se escreve a páginas 390 a propósito dos barbeiros, pelo que eles faltam às horas, que cada um tem por cómodas, merecem que deles façamos absoluta independência; e quem passar sem os ditos, para além da economia de 160 reis por mês que ao fim do ano são 1$920, livra-se ainda de lhe porem na cara a mesma mão com que talvez muito de fresco tenham coçado no fundo das costas.
    E é assim que estes textos acabam por nos dar uma panorâmica não apenas das praxes de então – as quais, diga-se em abono da verdade, eram bem mais duras do que as que tive de suportar enquanto caloiro – mas também da vida académica, dos costumes da época e da própria cidade de Coimbra. É só ler com atenção!
    Mas, infelizmente, a leitura da parte escrita em “macarrónea” não é fácil para quem desconheça a língua latina. Foi por isso que passei, inicialmente, ao largo de um poema denominado Calhabeidus LiberO Livro do Calhabé – que nos conta uma rocambolesca orgia de vinhaça, passada numa taberna onde o taberneiro, de seu nome Calhabé, era também o rei dos bêbados. Coisa de somenos, não fora ter sido alertado por Borges de Figueiredo que, na sua Coimbra Antiga e Moderna, edição Almedina de 1996 (edição original de 1886), escreveu: Encontra-se também próximo da Estrada da Beira um pequeno logar, o “Calhabé”, que foi formado pela agglomeração de pequenas casitas ao pé d'uma antiga taberna. Vem-lhe o nome d'um consciencioso sacerdote de Baccho, muito nomeado nos fins do século último, e do qual nos deixou memória um dos auctores da Macarronea, no Calhabeidus...
    O Calabeidos Liber apareceu pela primeira vez na edição de 1765. É, pois, de admitir que a taberna existisse por esta altura e que o nome do taberneiro se tenha, a pouco e pouco, estendido ao sítio, até porque o Palito Métrico acompanhou gerações e gerações de estudantes que recitavam de cor muitos dos seus versos, não deixando cair o Calhabé no esquecimento.
    Há livros sobre Coimbra antiga que mereciam ser reeditados. O Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa é um deles. Deixo à atenção das Editoras da cidade.
    Zé Veloso

EXTRACTOS do Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa:
1.º extracto: 2.ª e 2.ª estrofes do poema de 42 estrofes SISTEMA MÉTRICO MODERNO E EXPERIMENTAL
2.º extracto: 32.ª e 33.ª estrofes do poema de 38 estrofes QUEIXAS DE AMARO MENDES GAVETA. 

29 comentários:

  1. Boa noite
    Mais um motivante artigo para os teus leitores, interessados nos temas de Coimbra-Universidade-Estudantes-Costumes.
    1-Assisti, garoto, à medição do passeio, em frente ao antigo edifício da Faculdade de Letras, demolido, onde hoje se situa a Biblioteca/Arquivo-pelos caloiros moblizados.Contavam e recontavam, pois eram sucessivamente interrompidos , baralhando-lhes o número de palitos, até chegarem a um marco de correio, no final, frente ao Café Lusitano. Isto, nos anos 42-44.
    2-Ainda se vai encontrando, em alfarrabistas, a edição que referes do Palito Métrico.É preciso procurar…
    3-Será, agora, oportuno, indicar o sitio onde ler, em PDF:
    Leis extravagantes da academia ou código das muitas praxes por Barbosa de Carvalho-Coimbra 1916
    http://openlibrary.org/books/OL24346669M/Leis_extravagantes_da_Academia_de_Coimbra_ou_codigo_das_muitas_partidas
    Abraço

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  2. Caro Ricardo Figueiredo,
    Penso que é altura de te agradecer em público - uma vez que em privado já o fiz há bastante tempo - o empenho com que tens seguido o "Penedo d@ Saudade", tendo o cuidado de acrescentar sempre detalhes, informações complementares ou novas análises, o que muito tem enriquecido o conteúdo deste blogue, cujo objectivo é não apenas divulgar a sua temática mas também suscitar sobre ela o interesse de mais e mais pessoas.
    Agradeço-te o empenho com que tens trazido aqui, sistematicamente, referências bibliográficas e alguma informação mais densa que nem sempre as crónicas conseguem comportar, em face do estilo de escrita leve e acessível que as caracterizam.
    Bem hajas!
    Zé Veloso

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  3. Boa tarde!

    Em primeiro lugar devo dizer que fico surpreendida com muitas das publicações neste blog, não só pelos factos históricos mas pela forma como acabaram por ser vividos na primeira pessoa. Um conceito de ser-se estudante completamente diferente, uma noção de Academia muito enraizada e enfatizada...

    Não podia deixar de comentar: possuo o Palito Métrico na edição fotografada. Encontrei-o num alfarrabista aqui no Porto. Não o li todo (ainda) mas eu e uns amigos temo-lo usado em Praxe, com amigos, com caloiros e com uma minoria de interessados.
    Com o passar do tempo e das matrículas vamo-nos apercebendo que estamos cada vez mais distanciados da "praxe" da actualidade. Falo no Palito Métrico a 90% dos praxistas e recebo como resposta um: "Mas que raio é isso?".
    Cada vez mais a praxe é um veículo de INcultura e laxismo conceptual personificado em manadas de caloiros a seguirem, cabisbaixos e a gritar músicas carregadas de brejeirices, uma colher de pau transportada por doutores de capas orgulhosa e propositadamente sujas, batinas orgulhosa e propositadamente andrajosas e sapatos orgulhosa e propositadamente por engraxar. São a imagem do desleixo ao qual estas gerações de estudantes sucumbem.
    Desmazelo na Praxe - não querem saber de porquês, não vão mais a fundo das questões, não sabem receber os caloiros, não sabem brincar, não lhes puxam pela imaginação nem incutem o espírito de desenrasque. Ouve-se ao longe "Caloirada, tudo de quatro!! Vocês são uma M****! Não aparecem à praxe! Não cantam alto!" e toda uma academia gira à volta dos caloiros, de uma caçoada desprovida do intlecto que se esperava encontrar em alunos Universitários. Não se aprende nada na praxe. Nem se aprende sequer o que é a Praxe!...
    Desmazelo também na Vida: são estes "estudantes" aos quais lhes passa ao lado os problemas da actualidade, as relações sociais resumem-se às bebedeiras de sábado à noite e aos amigos do Facebook, o auge do dia é ter posto as fotos do Algarve do último Verão e ter toda a gente a gabar o bronzeado. Não têm opinião sobre Bolonha, não acham escandaloso que em certas faculdades a tese de mestrado valha uns míseros 7 créditos (em 360!!).
    Duxes opulentos e baforosos espremem o poder que lhes é auferido pelas matrículas. "Se queres ir jantar tens que me dizer! Levas caloiros? Pedes-me autorização. Não estás na praxe? Então EU tenho que saber". E assim toda a espontaneidade que alimentava a Praxe acaba por esmorecer.
    Tudo está planeado e controlado: os caloiros saem do Secundário e chegam à Universidade e são recebidos como seriam num campo de férias. Brincadeirinhas e joguinhos e uns castiguinhos de quatro por não berrarem alto e terem sido "comidos" por Engenharia. O típico. A mentalidadezinha tacanha que tem vindo a prevalecer na Academia do Porto (e nas outras cheira-me que é ainda pior).
    Contudo, tenho aprendido com meia dúzia de verdadeiros Praxistas e Amigos como viver estes anos de curso em que não estou a tirar apenas um curso - seria demasiado redutor, é notório. Onde tenho aprendido o que é a verdadeira Praxe. Aquela em que, como diz um veterano que conheço, revela a postura que temos perante a Vida.
    "Na Praxe e na Vida..." e assim se começam muitas frases em contextos altamente convergentes.

    O comentário já vai longo e vou finaliza-lo a agradecer ao Ricardo Figueiredo pelo livro digitalizado. Já lhe passei os olhos (e enviei para a tal meia dúzia) e reparei na referência à Universidade de Toronto ;) Se tiver mais pode colocar os links por favor?

    Um bem-haja a ambos e a todos que tenham tido paciência para atentar neste grito d'alma.

    Uma Quintanista da Academia do Porto

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  4. A uma Quintanista do Porto:
    Obrigado pelo seu comentário.
    Gostaria de lhe dizer que a minha vida académica - que de facto foi muito intensa, combinando sempre a parte escolar com a parte lúdica, social, desportiva e artística - foi vivida não apenas em Coimbra mas, também, no Porto, onde tive a felicidade de viver 3 anos numa República espectacular, a Real República dos Ly-S.O.S.
    Quanto ao exercício da praxe, nunca integrei uma única trupe nem mobilizei um só caloiro, ainda que tivesse sido rapado quanto aluno do liceu e mobilizado quando caloiro.
    A praxe para mim sempre esteve acima dessas pequenas incidências. Mas é claro que pus grelo, fitas e cartola, usei capa e batina anos a fio, fui num carro da Queima em Coimbra e noutro no Porto e fui rasgado à porta da República no dia da minha formatura na FEUP.
    Tudo isto e outro tanto - a praxe - constituiu, sem que eu na altura me apercebesse disso, um conjunto de tradições, modos de estar e de proceder que funcionavam como pano de fundo que permitia, na prática, o florescer da camaradagem e da solidariedade, do espírito de corpo e do desenrascanço, o cimentar de amizades fundas e desinteressadas.
    Quando desfilei no cortejo de fitado, no Porto, não levei comigo a pasta com as fitas cor-de-tijolo, de que tanto me orgulhava. É que um colega de curso e de República tinha perdido as dele, no meio da confusão, e chorava de desgosto porque os pais tinham vindo ao Porto para o ver de fitas. E foi assim que me vi forçado a viver sem fitas o meu primeiro dia de fitado... A praxe é importante enquanto contribuir para fomentar comportamentos que estejam muito acima das praxadelas.
    Sobre a questão dos links e da bibliografia é algo que pretendo vir a integrar aqui no blogue, de forma sistemática, criando para tanto uma página própria. Para o fazer, vou precisar ainda de algum tempo e terei de pedir aos amigos que me façam chegar informação, já que estou bastante mais à vontade nas buscas clássicas do que na busca via internet.
    Mas sempre que possível e apropriado, as referências e os links irão aparecendo, quer aqui no blogue, quer no facebook.
    Um abraço, apareça sempre!
    Zé Veloso

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  5. Daqui Ricardo Figueiredo
    Relendo, anos 1943-48 (*)
    “……à Rua Larga onde, junto da sede da ASSOCIAÇÃO ACADÉMICA, se juntavam inúmeros grupinhos a discutirem os resultados da Académica, ou a comentarem as lacunas do Palito Métrico, sobre a dura praxis.”
    “No PRA-KISTÃO , no exame de admissão à Universidade de um caloiro
    -Frente ao júri, ordenaram-lhe:
    -Levante-se a besta.Ponham-lhe uma capa de estudante, pelos ombros.
    De postura grave e como lhe ensinaram, colocou a mão direita sobre um exemplar do PALITO MÉTRICO, luxuosamente encadernado a percalina cor de rosa, que se encontrava à sua frente, sobre a mesa
    -Jura dizer a verdade, ainda que seja mentira, pela sua honra e pela alma do autor anónimo, do cruel Palito Métrico?
    -Juro sim!
    E, depois, mais adiante:
    “-E quem foi o alarve que escreveu o PALITO MÉTRICO?
    -Não sei.
    -Não sabe você, nem sabe ninguém!
    -E o que é que se escreveu primeiro, a Bíblia ou o Palito Métrico?
    -????
    -Foi o Palito, seu parvo, ainda no tempo do analfabetismo, para inglês ver.”
    (*)In Coimbra-Praxe e Tradições-Filipe Nortadas Pereira-Minerva -2003
    O meu abraço, e continua
    Ricardo Figueiredo

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  6. Meu caro Zé Veloso
    Relendo, sempre motivado pelos temas que, de modo tão apelativo, escreves, procuro juntar à discussão a palavra de um“brioso” estudante coevo.
    Quanto aos anos 1926-32 , escreveu António Macedo (*) sobre a luta praxistas-anti-praxistas
    “ A política puramente académica sobrepujava a dos partidos ou facções, se estavam em jogo problemas escolares
    A Academia procurava ter consciência da sua força, para ser respeitada a sua «soberania».E provas deu da rijeza da sua vontade, do carácter das suas intenções, ao declarar guerra aberta à «praxe» e ao «palito métrico».
    E mais adiante:”Praxistas e anti-praxistas lançaram na mesa os seus trunfos e a «praxe» foi vencida nos seus aspectos degradantes ou de humilhação e atenuada em outros, como na práticas inconcebível--- e que pelo exagero chegou a ser monstruosa--- da «tourada» ao lente.”
    Digo eu:Era o que se chama, agora, de auto-regulação,o que terá permitido que a “praxe” tivesse chegado aos nossos/meus dias, anos 50, ainda que controversa, sem antagonismos fraturantes.
    (*)Da Academia do meu tempo aos estudantes de amanhã-1945, pag.19

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  7. Caro Zé Veloso:

    "Métrico", em literatura, quer dizer "em verso".

    Naturalmente, entendo que o autor tirou partido da dupla significação em que a palavra "métrico" pode ser entendida - "em verso" ou "de/para medir" (como em "fita métrica").

    Pode muito bem ser uma alusão a esse costume de mandar medir algo com um palito. No meu tempo, ainda se mandava medir o anfiteatro grande da Faculdade de Letras do Porto com um palito. Será uma questão de ovo e galinha? Será que o título deu origem à prática ou a prática ao título? O certo é que na obra não é feita a mínima alusão a esse costume.

    Notará que na mesma obra há um "Freio Métrico" (em verso, portanto) para os novatos de Coimbra.

    Também me tenho interrogado sobre a origem do título, mas sem ter chegado a muitas conclusões.

    Um abraço da capital das tripas.

    Eduardo

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  8. Caro Eduardo,
    Obrigado pelo seu excelente comentário! Desconhecia que "métrico", em literatura, fosse sinónimo de "em verso" (Engenhêros!…), o que coloca, e bem, a dúvida “do ovo e da galinha”. Reforçando a sua hipótese, existe ainda o texto Sistema Métrico, também ele em verso.
    Penso que não seremos apenas nós dois a interrogar-nos sobre a origem do título. E não deve ser fácil lá chegar… Nem A. G. Rocha Madahil – que pela certa também se interrogou – se atreve a abordar sequer o assunto no prefácio da obra .
    Juntando mais lenha para a fogueira: E “palito”? Teria também ele um duplo sentido? O título completo do poema é “PALITO MÉTRICO / Lavrado no Lorvão / da pachorra com a ferramenta da cachimónia, embrulhado no título de Calouríada…"
    Os palitos de Lorvão eram fabricados à mão com uma simples faca ou navalha, um a um, com muita pachorra, sendo depois embrulhados em papel. Há aqui um decalque evidente… mas quem me diz que a palavra “palito” não tinha um segundo sentido?
    Um abraço,
    Zé Veloso

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  9. Bem, meu caro Zé Veloso, com essa achega dos palitos do Lorvão, parece-me que o decalque é evidente.

    Mais ainda se, pelo lado da dupla significação, atentarmos ao verso final do célebre soneto em que se define "caloiro":

    "É um corno e assentem todos nisto"

    Teríamos, então, um "corno (caloiro) em versos": Calouríada (cunhado a partir de Ilíada).

    É uma possibilidade - algo rebuscada, mas possibilidade... :)

    Forte abraço e parabéns pelo blogue - e tem aqui mais um seguidor fiel.

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  10. Bom, mas o mais provável é que estivesse a dizer que cada verso foi trabalhado à mão com o canivete da pachorra e embrulhado naquele título: em vez de ser um palito de madeira, era um palito em versos...

    Confiemos no princípio de Occam: as explicações mais simples são sempre as mais acertadas.

    Parece-me que o caro Zé Veloso deu com a solução do caso :)

    Abraço,

    Eduardo

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  11. Caro Eduardo,

    Não sei se a possibilidade será assim tão rebuscada, em face da capacidade imaginativa e de dissimulação do autor, que segundo Madahil, se supõe estar por detrás de vários dos poemas da colectânea, sob diversos pseudónimos.

    Entretanto fui até à internet procurar sobre o Mosteiro de Lorvão (Penacova), de cujas tradições apenas "tinha ouvido falar", ainda criança, e aí encontrei:

    "Lorvão é também conhecido pelos deliciosos doces conventuais originários deste Mosteiro, existindo pastelarias próximas que ainda os comercializam, e também célebre pela produção dos “Palitos”, feitos originariamente pelas freiras para decorar os bolos e os doces, e posteriormente passaram a ser produzidos pelas criadas e, assim se divulgaram na população e povoações vizinhas."

    Um abraço,
    Zé Veloso

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  12. Idêntico (no conceito) "preâmbulo" é feito no "Sabonete Délfico" Fabricado na melhor Arouca da chocarrice, etc., etc.

    Ambos apontam para produtos de higiene (palito/sabonete) fabricados em localidades eventualmente famosas por esses produtos (Lorvão/Arouca).

    "Délfico" - de Delfos, principal centro do culto de Apolo (deus das artes - e da poesia, portanto) - remetendo mais uma vez para a noção de "verso".

    Há, ainda nesta senda, a "Bisnaga Escolástica".

    Parece ter havido aqui uma "passagem de testemunho" que vem desde o autor primitivo - palito/sabonete/bisnaga - quiçá numa alusão às propriedades "higiénicas" do papel em que as obras eram impressas :), circunstância, aliás, expressa num dos "prefácios", cujo autor confessa que o papel sempre teria seu préstimo...

    Quanto à questão de o "Palito Métrico" poder ser um código de praxe, sou de parecer negativo. Nem tem estrutura nem intenção de tal. Poderá ser, quando muito, e se bem lido, um "manual de praxe" (para mim foi-o, certamente) - para lá de uma hilariantíssima lição magistral de latim macarrónico.

    Abraço, caro Zé Veloso,

    Eduardo

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  13. Caro Eduardo,
    Não sei se reparou que Rocha Madahil atribui a paternidade dos poemas Palito Métrico, Bisnaga Escolástica e Sabonete Délfico ao mesmo autor, Padre João da Silva Rebelo, que se vai escondendo atrás de pseudónimos diversos.
    Isto dá uma certa força à sua tese dos “produtos de higiene”.
    Um abraço,
    Zé Veloso

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  14. Caro Eduardo,
    As coincidências (ou talvez não) continuam a aparecer. Tal como em Lorvão, também em Arouca havia um mosteiro feminino, tanto ou mais famoso que o de Lorvão, onde não custa a crer que as freiras fizessem os seus próprios sabonetes...
    Será que este padre-poeta era um daqueles chamados estudantes «freiráticos»? Se calhar já estou a andar depressa de mais...
    Zé Veloso

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  15. Isto da investigação, meu caro Zé Veloso, é como as cerejas :)

    É bem possível que o nosso bom António Duarte Ferrão também desse as suas "ferroadas" nas noivas de Cristo... Sobre sabonetes em Arouca, vou ver isso melhor. Tenho pena de não ter acesso aos originais. No entanto, podemos estar perante casos de homonimia, isto é, a palavra "arouca" poder significar outra coisa além da localidade, já que numa das citações feitas por Madahil a palavra "arouca" aparece grafada em minúscula. Pode, em todo o caso, tratar-se de erro tipográfico.

    Estou a reler com mais atenção as advertências, preâmbulos e frontispícios - com particular atenção os das três obras de A. D. Ferrão. Vou ver se é possível encontrar mais pontos que possamos unir para formar uma linha coerente.

    Entretanto, tendo pessoas conhecidas em Arouca, vou ver as informações que por aí posso obter.

    Eduardo

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  16. Eduardo,
    A Câmara de Arouca promoveu em 2004 um evento de reconstituição de como era a vida das freiras dentro do convento há 300 anos.
    Zé Veloso

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  17. Caro Zé Veloso:

    as informações preliminares que obtive apontam no sentido de o convento de Arouca ter sido de facto importante na manufactura de sabonetes.

    Foi-me referido de facto uma "feira medieval" onde havia uma barraquinha de freiras espanholas que vendiam uns sabonetes aparentemente segundo a receita do convento.

    A carecer de confirmação mais aprofundada, que obterei possivelmente ainda durante esta semana.

    Abraço,

    Eduardo

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  18. Meu caro Zé Veloso
    Como vais tendo, cada vez mais, interessados nos temas que desenvolves,no caso, a praxe, junto um excerto de um artigo de jornal, contemporâneo do facto que ,Alberto Sousa Lamy, refere na obra “Academia de Coimbra” a pag.376,como segue:
    “A 3 de Maio de 1873, pelas 8 horas da noite, junto do Castelo (*), foi cortado o cabelo, à força, a um estudante que, mal se viu livre dos agressores, atirou-lhes uma pedra, ferindo mortalmente um deles”.
    Este acontecimento deu ocasião a um extenso artigo, um apelo em tom dramático, no Primeiro de Janeiro, de Alberto Pimentel, que merece ser lido na totalidade e de que transcrevo alguns parágrafos:
    …..”Sede como o agricultor, e primeiro extirpae as tradições anachronicas da academia do que as tradições
    anachronicas da sociedade.A troça é um velho habito da vida escholastica daUniversidade.Vós, que vos estaes preparando para defrontar os mais nublosos problemas do futuro, retrocedeis ao passado pelas chacotas truanescas da troça.Troçar é ridicularisar.Fundi a estatua da humanidade, não traceis a caricatura do homem.No caloiro ha o embryão que pôde ser flor, a chrysalida que se volverá borboleta.
    É uma recruta que vem procurar o vosso regimento.Recebei-o, não o amedronteis.Começae pois por defender os direitos primitivos de vós mesmos ; por impor respeito á personalidade physica e moral da vossa numerosa familia universitária.
    ……A troça abriu recentemente, no seio da academia, a sepultura de António de Barros Coelho de Campos.
    Não caveis sepulturas entre vós. Eu quizera vêr abolida a troça não pela Universidade mas pela Academia.
    E assim ha-de ser.Sabereis vingar com a vossa provada grandeza o irmão que está no cárcere e o irmão que está na sepultura.A abolição da troça ficará para sempre vinculada á memoria por igual pungente e sublime da catastrophe de 3 de maio.
    Triste, porque foi uma dupla desgraça. Sob a abobada um corpo que desejara a morte; soba terra um corpo que tinha direito á vida.Quem os matou a ambos?
    Foi a troça. A troça é homicida……
    In À ACADEMIA DE COIMBRA-ALBERTO PIMENTEL
    Entre o caffé e o cognac (1873)
    (*)Na antiga ALTA, onde hoje se situa a estátua.Ainda conheci esse largo, com o arco, hospital dos Lázaros, farmácia, livraria do Castelo, etc.

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  19. Caro Zé Veloso:

    investigações mais aprofundadas sobre a eventual "tradição saboneteira" de Arouca revelaram-se infundadas...

    Nada há que aponte nesse sentido.

    Quanto ao comentário - precioso! - do Ricardo Figueiredo, registo que o "estudo" da praxe há-de servir para desmontar a visão militarista que, infelizmente, tem tomado conta desse aspecto particular da praxe (troça ou gozo do caloiro) e que, não tendo (ainda...) chegado ao ponto descrito no texto de Alberto Pimentel, dele se aproxima perigosamente.

    Que nestes testemunhos que vamos deixando possam os (biologicamente) novos sentir o pulso a uma forma mais sadia e mais humana de viver em academia.

    Abraço,

    Eduardo

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  20. Caro Eduardo,

    Estava convencido que o sabonete iria dar a qualquer lado. Que diabo… o homem fala em sabonete e em Arouca! Mistérios… talvez um dia lá cheguemos.

    Quanto ao comentário do Ricardo Figueiredo, dizia-me um amigo meu, praxista de Coimbra dos anos 50, qua a praxe sempre evoluiu no sentido civilizacional. E é curioso notar que as troças eram já uma evolução relativamente a praxes anteriores, absolutamente brutais, como as investidas e o canelão. Maria Eduarda Cruzeiro tem um estudo muito interessante sobre a evolução da praxe académica coimbrã, que situa este “amaciamento” das praxes na segunda metade de século XIX e inícios do século XX, altura em que a sociedade civil se tornava mais civilizada, mais democratizada e mais moderna, o que expunha as antigas praxes a um desajustamento que a cidade de Coimbra e o país já recriminavam.

    Eu tenho para mim que as praxes seguem o seu caminho, começando em bruto e de forma estupidificada e estupidificante mas polindo-se ao longo dos tempos. Nas universidades mais antigas, com mais história, uma grande parte do percurso já está feito, as arestas foram-se polindo, a estupidez e a violência já se encontram bastante decantadas. Ao invés, nas universidades mais recentes, sedentas de exibir uma tradição que não têm, há tendência para o fundamentalismo e, à falta de tradições próprias, importam-se das universidades mais antigas o que estas já tiveram de mais primitivo; e agarram-se ao Palito Métrico como lapas, replicando, fora de época, o que as praxes têm de mais fácil, mais baixo e mais primitivo: o aniquilamento intelectual do mais fraco, o caloiro.

    Como apenas me dedico a estudar as tradições de Coimbra e, quanto às novas universidades, apenas sigo o que episodicamente é publicado nos jornais – e só as coisas negativas são notícia – posso estar a ser injusto para com as universidades mais novas. Se assim for, que me desculpem.

    Um abraço,
    Zé Veloso

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  21. "(...) nas universidades mais recentes, sedentas de exibir uma tradição que não têm, há tendência para o fundamentalismo e, à falta de tradições próprias, importam-se das universidades mais antigas o que estas já tiveram de mais primitivo; e agarram-se ao Palito Métrico como lapas, replicando, fora de época, o que as praxes têm de mais fácil, mais baixo e mais primitivo: o aniquilamento intelectual do mais fraco, o caloiro. (...)"

    Diz bem, caro Zé Veloso.

    Curiosamente, agarram-se ao Palito Métrico... sem nunca lhe terem visto sequer a capa...

    Há uma suposta tradição em volta do Palito Métrico: veja que já o consideram como um Código de Praxe - só mesmo quem o não leu pode afirmar tal coisa. É frequente ouvir "O Palito diz isto, o Palito manda aquilo" - coisas que lá não estão nem estiveram nunca.

    É evidente que o Palito é uma das fontes de onde é possível deduzir alguns preceitos - designações de graus hierárquicos, por exemplo. Mas pouco mais.

    Sinto-me tentado a publicar uma versão bilingue do mesmo (com o texto original macarrónico e a tradução em português ao lado) para ver se essa gente começa a abrir os olhos e, na busca desenfreada do tal código, apanhar uma valente desilusão...

    Aquele abraço e continuação de bom trabalho.

    Ainda não desisti da hipótese "Arouca". Estou a sondar outras possibilidades. Vamos ver no que dá.

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  22. Viva, Eduardo,
    Essa ideia de um Palito Métrico bi-lingue pode ter pés para andar. Eu penso que terá venda garantida. Tenho em mente uma editora que não enjeitaria essa oportunidade.
    Se pensar mesmo em avançar, dê-me um toque para o meu e-mail. Talvez possa ajudar.
    Um abraço e bom Natal!
    Zé Veloso

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  23. Caro Zé Veloso:

    a pista dos "sabonetes de Arouca" deu em nada. Não há registo de que tenha havido uma indústria de sabão na zona. Nem sequer relacionada com o convento.

    Determinei, entretanto, que "Arouca" é também o nome de uma planta endógena da serra de Sintra. Poderia o homem estar a referir-se ao ingrediente de que o "sabonete délfico" seria fabricado, não ao local de fabricação? A exegese do texto não aponta para aí, mas...

    Forte abraço,

    Eduardo

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    1. Eduardo,
      Há um ditado, que eu costumo citar, que diz assim: «Quem encontra sem procurar é porque já muito procurou sem encontrar». Quero com isto dizer que um belo dia, quando menos se esperar, a solução vai aparecer.
      Um abraço.
      Zé Veloso

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  24. Gostei muito do post e de todos os comentários a ele associados! Espero que o Eduardo e o Zé Veloso tenham sucesso na sua busca de descodificação das belas palavras desses tão engraçados livros académicos! Boa Sorte e obrigado por partilharem informação!

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  25. Caro caloiro da FEP
    Obrigado pelo incentivo. Acho que o Eduardo ainda nos vai trazer por aí uma surpresa um dia destes. Ele tem a grande vantagem de saber latim e, portanto, conseguir descodificar a macarrónea que, para mim, é indecifrável.
    Nunca pensei que o latim me viria um dia a fazer falta. "Engenheros"...
    Um abraço,
    Zé Veloso

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  26. Palito métrico... E de como o inusitado do título e da medida suscita métricas outras, em medidas livres, libertas do formalismo do ABBA. Grata pela leitura. Foi um prazer passar por aqui.

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  27. Não sei se se recorda, Zé Veloso, de há tempos lhe ter perguntado se sabia de alguma "Tradução" do Palito Métrico. Mas afinal o Dr. Eduardo deu-nos uma enorme esperança! Que venha essa tradução depressa caso contrário já não tenho o prazer de a ler! É que a idade não perdoa! Se for em frente, estou na primeira fila para a adquirir. Parabéns por todos estes comentários e muita força para o Dr. Eduardo.

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    1. Caro amigo,
      Penso que uma tradução do Palito Métrico seria um sucesso comercial mas, para tal, teria de ser uma tradução muito bem feita... em verso... numa tradução livre que lhe conferisse alguma parte do humor que sempre perderia ao passar da macarrónea para o português.
      Digo isto porque em tempos pedi a alguém que sabia latim que me traduzisse o CALHABEIDUS LIBER (LIVRO DO CALHABÉ)... e apanhei uma tremenda decepção. Isto porque uma boa parte da graça do poema estaria na própria macarrónea em si mesma e no efeito provocado pela rima.

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