quinta-feira, 3 de novembro de 2011

DAS LATADAS À FESTA DAS LATAS (Parte II)

Parte II: As latadas do início do ano lectivo. A imposição de insígnias

    Vimos na ParteI deste tema que as latadas do final do ano lectivo, coincidentes com a emancipação dos caloiros, terminaram por volta de 1935.

    Mas como lata faz barulho e barulho é sinal de festa, as latadas voltaram no final da década de 40, continuando pelos anos 50 e 60. Só que, desta vez, aconteciam no início do ano lectivo e estavam ligadas à imposição de insígnias: aos quartanistas que, a partir desse dia, poderiam colocar na pasta o grelo que tinham posto na lapela na Queima do ano anterior; e aos quintanistas que, tendo posto fitas na Queima anterior, podiam agora exibi-las até à Queima seguinte.

    As latadas eram 5, uma por cada Faculdade de então – Medicina, Direito, Ciências, Letras e Farmácia – e aconteciam, não necessariamente por esta ordem, às quartas e sábados, depois de terminados os exames de Outubro. Os cursos de Matemáticas, Engenheiro Geógrafo e os Preparatórios de Engenharia, todos eles com insígnias azul clara e branca, alinhavam na latada de Ciências.

    Para os quartanistas grelados, os jovens lobos que iriam iniciar o seu ano de glória, a manhã começava muito cedo, com a visita ao mercado D. Pedro V. Era o reencontro entre os estudantes e as vendedeiras de hortaliça, a pretexto da compra de um nabo de rama farfalhuda que se metia na pasta onde o grelo florescia pela primeira vez. Dali saíamos a cantar uma lenga-lenga já caída no esquecimento da Academia de hoje,

          Meu nabo, meu grelo
          Sinto prazer em tê-lo
          Que não há nada mais belo
          Que o grelo do nabo
          Que o nabo do grelo
enquanto, pela cidade, se ouvia já ao barulho dos Zés Pereiras e do foguetório.

    Estes ritos eram automáticos e ninguém se questionava. Mas eu coloco a questão agora: Por que carga de água se chamará «grelo» à fita estreita? E que relação intrigante era esta, entre estudantes e vendedeiras de hortaliça, que levava os primeiros, no ano que representava o zénite da sua passagem por Coimbra, a ter como primeiro acto, após a imposição do grelo, uma visita ao Mercado D. Pedro V?

    António Rodrigues Lopes (A Sociedade Tradicional Académica Coimbrã, 1982) parece trazer-me a resposta em quatro escassas linhas: O “grelo” seria a reminiscência de um molho de bróculos que floresceu de uma greve de hortaliceiras que a academia, solicitada, secundou. Surgiu deste modo, como símbolo heráldico de reivindicação contra a truculência da Câmara Municipal (in “À Porta Férrea”, de Serrão Faria).

    A greve a que se refere ARL ficou conhecida pela «Revolta do Grelo». Foi uma insurreição muito séria, que durou vários dias e chegou a envolver 10.000 manifestantes, juntando estudantes e futricas do mesmo lado da barricada. Vamos aos factos: Em 11 de Março de 1903, insurgindo-se contra o aumento do imposto do selo, as vendedeiras de hortaliça do Mercado D. Pedro V entraram em greve, no que foram secundadas pelo comércio e operariado da cidade, ficando Coimbra sem abastecimentos por alguns dias. Seguiram-se tumultos vários e a intervenção das forças da ordem, vindas de fora, a qual se saldou por quatro mortos e vários feridos entre os populares e um morto entre os soldados. A Academia reuniu, declarou-se incondicionalmente ao lado do povo de Coimbra e organizou uma recolha de fundos para auxiliar as famílias das vítimas. O Governo encerrou a Universidade a 14 de Março e determinou que todos os estudantes não residentes saíssem de Coimbra, mas poucos arredaram pé. As aulas só reabririam a 20 de Abril.

    Será que a ida ao mercado era o ritual inconsciente de um encontro que se repetia, por uma aliança forjada sessenta anos atrás entre os estudantes e as vendedeiras de hortaliça? E será que a denominação de «grelo» é alheia a tudo isso?

    À tarde tinha lugar a latada propriamente dita. Era um cortejo trapalhão, com alguns zabumbas à mistura, que seguia o mesmo trajecto do cortejo da Queima. Para além dos grelados e fitados, de capa e batina e insígnias, desfilavam os caloiros que tivessem sido mobilizados, razoavelmente mascarados, tipicamente de pijama ou com o casaco do dia-a-dia vestido do avesso e as calças arregaçadas. Poucas latas havia, para além duns quantos penicos de esmalte, baixela indispensável das praxes coimbrãs. As greladas e fitadas seguiam na latada mas as caloiras não eram mobilizáveis. Os caloiros, que podiam pertencer a qualquer curso, ou seguiam ao serviço de um doutor que fizesse questão de levar o seu «animal de estimação» – eu levei um caloiro que me chegava um penico para aparar a cinza do cigarro e me estendia uma passadeira de cada vez que decidia ir cumprimentar um conhecido na assistência – ou faziam parte da legião de porta cartazes, a função mais chata mas também mais digna, já que os cartazes eram o prato forte da latada; e uma latada se dizia boa ou má consoante a piada, a classe e o atrevimento dos seus cartazes.

    Em época de censura, tudo era dito por meias palavras, por frases cândidas que escondiam malandrice, por frases banais cujo arranjo gráfico poderia sugerir muito mais do que uma banalidade: Numa altura em que a palavra «Salazar» logo levantaria suspeitas, poderia o «sal» estar no início da frase e o «azar» no final dela mas escritos com uma cor que os realçasse. Aí, a censura, ou não entendia de todo ou não encontrava forma de cortar, fazendo-se, então, desentendida.

    À noite a festa terminava no Tetro Avenida, já que os seus proprietários deixavam entrar de borla grelados, fitados e caloiros mobilizados, numa balbúrdia tremenda, um autêntico salve-se quem puder na busca de um lugar. O Avenida ficava cheio que nem um ovo, do galinheiro às coxias. Enquanto decorriam os documentários, ainda os porteiros tentavam controlar as entradas. Mas mal rugia o leão da Metro, a malta que ainda estava cá fora, como que galvanizada pelo ronco do bicho, logo fazia saltar os porteiros do lugar antes que fossem as portas a saltar dos gonzos.

    O filme era quase sempre mauzinho, ainda que, na minha latada, tenha sido o West Side Story, que nos deixou mudos de espanto. Claro está que mal o Richard Beymer (Tony) começou a cantar «Maria, Maria, Maria…», logo do galinheiro alguém pediu uma bolachinha e estalou a gargalhada geral… Ai, aquele galinheiro! Empoleirados junto ao tecto, mal enxergavam o ecrã! Mas quando aparecia um decote mais generoso, logo gritavam para a plateia que dali é que se via tudo.

    E hoje em dia como é? Acabadas as Latadas, aí temos a Festa das Latas, com algumas diferenças importantes mas não diferindo no essencial, ou seja: uma festa que acontece no início do ano lectivo e que está associada à imposição de insígnias dos novos grelados e fitados. Aliás, a denominação oficial da festa deste ano é «Festa das Latas e Imposição de Insígnias 2011». No entanto, ela serve também para mostrar os caloiros à cidade e promover o seu baptismo.

      Mas o que há, então, de diferente?

    Desde logo, um cortejo único. Se assim não fora, com o actual número de Faculdades (8) mais os Politécnicos e outras escolas de ensino superior (mais 8) teríamos latadas até ao Natal. Mas se o cortejo é único, o grosso da festa prolonga-se por quase uma semana, fora os preliminares, uma série de «inventos» que a malta organiza, desde concursos literários e fotográficos a torneios desportivos e peddy-papers, passando por uma caça ao tesouro em Conímbriga e por umas olimpíadas do conhecimento sobre Coimbra e a vida académica. São «inventos» que têm para o caloiro que chega uma função integradora muito mais eficaz do que as mais que estafadas praxadelas do tipo brincadeiras bobas no meio da rua.

    A abertura oficial das Festas é marcada por uma serenata que tem lugar às zero horas de quarta para quinta, sem local fixo mas que se pretende não seja na Sé Velha. Já foi no Largo da Sé Nova, à Porta Férrea e na Praça Velha. Gosto da ideia de abrir as festas com uma serenata, acarinhando e perpetuando os fados e guitarradas de Coimbra. Mas agradar-me-ia mais que a serenata fosse sempre na Alta, já que é lá o seu espaço natural, por ser na Alta que reside a fonte de todas as tradições académicas. Mas se até o Hilário cantava no Choupal, conforme reza o fado que tem o seu nome, quem sou eu para condenar uma serenata na Baixa?

    Como sucedâneo de luxo dos filmes no Teatro Avenida temos as noites no Queimódromo / Praça da Canção, com um cartaz de «show business» à escala dos nossos dias, do poder de compra dos estudantes de hoje e dos interesses comerciais que se movem em torno das festas académicas, onde cada vez a cerveja mais escorre e o INEM mais acorre.

    Mas é no cortejo de terça-feira – cerne praxístico das festas – que eu encontro mais novidades: desde logo, qualquer estudante universitário pode desfilar, ainda que apenas os grelados levem consigo as insígnias; e os caloiros no cortejo são agora de ambos os sexos, já que as caloiras podem ser mobilizadas pelas doutoras. Aliás, penso que a entrada da mulher em peso naUniversidade terá sido a mola impulsionadora da mudança. Embora mantendo ainda um cunho reivindicativo e crítico, o cortejo ganhou uma alegria que não tinha no meu tempo, mais se assemelhando a um desfile carnavalesco, onde cada curso canta o seus hinos e faz as suas coreografias, com os caloiros e caloiras vestidos com fantasias de cores garridas.

    Para além disso, existem dois conceitos completamente novos, cuja origem desconheço: o baptismo de caloiro e o morder do nabo. Quanto a este último, os caloiros, durante o cortejo, têm de ir mordendo os nabos dos grelados, cuja rama é mais tarde atirada ao Mondego. Quanto ao baptismo, cada caloiro/caloira escolhe, entre os doutores, um padrinho/madrinha de baptismo (ver Nota no final). Chegados ao largo da Portagem, a turba dirige-se para essa enorme pia baptismal que dá pelo nome de Mondego e, fazendo-se uso dos penicos que cada caloiro transportou consigo durante o cortejo (conjuntamente com uma chupeta descomunal), vai de mandar pela cabeça da caloirada abaixo – «in nomen solenissima praxis caloiro(a) baptizado(a) est»! – um chapadão de água do rio que, embora não me constando que seja benta, tem a propriedade de curar na hora uma boa parte das borracheiras em que o cortejo é fértil. Tudo previsto!

    Deixei para o fim a visita ao mercado D. Pedro V, onde se introduziu, há já mais de uma década, a triste ideia de que a tradição impunha que o nabo fosse roubado e não comprado. Em 1/11/2000 li no Diário de Coimbra uma exortação do Conselho de Veteranos, lembrando que o nabo é para ser comprado e não roubado. Mas, sete dias mais tarde, o mesmo jornal anunciava, como fazendo parte do programa oficial da latada, o «Roubo do nabo»… Distracção? Gato escondido com o nabo de fora?

    Estive em Coimbra há poucos dias e falei com várias vendedeiras do mercado que me disseram que já se rouba menos… mas ainda se rouba! É uma pena. E é indigno de um estudante, que assim se diverte no que é o trabalho dos outros.

    Faço votos para que este estúpido costume – o roubo do nabo – caia rapidamente em desuso. Seria uma pena que, por brincadeiras inconscientes, fosse posta em causa uma aliança tão bonita e tão antiga. É que os estudantes de Coimbra aprenderam a ir ao mercado abraçar as vendedeiras muito antes dos políticos. E não o fizeram para caçar votos, mas sim por solidariedade.

    Nota: A escolha de um padrinho pode ser inspirada nas descrições do Palito Métrico, que nos transmitem que era frequente os caloiros colocarem-se sob a protecção de um veterano “lá da terra” ou que lhes tivesse sido recomendado.

    Zé Veloso


Nota: A fotografia acima é pessoal e não deverá ser reproduzida.

7 comentários:

  1. Zé Veloso, caro amigo
    Os teus seguidores neste tema, podem ter uma visão,ainda que titulada, pois se trata de um jornal partidário, –revolta do grelo/férias da couve-, no jornal “A Resistência”,19-03-1903
    https://bdigital.sib.uc.pt/republica1/UCSIB-GHC-154/UCSIB-GHC-154-1903-t1/UCSIB-GHC-154-1903-t1_item1/P81.html
    Saberão onde , local, caíram os mortos e o desenrolar das operações.Como foi vista a posição da Academia, por este jornal?Têm uns tantos exemplares que relatam os acontecimentos.
    Abraçol

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  2. A contrapor aos relatos, muito a quente, de “A Resistência” sobre a denominada «Greve do Grêlo» - Vide comentário do Ricardo Figueiredo - junto o link para um ensaio de análise política de Vasco Pulido Valente, baseado em várias fontes da época, cobrindo um largo leque de quadrantes políticos: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1224071208M5pHE5kz0Vb64QA0.pdf. Vale a pena ler.
    Uma outra fonte ("Saudades de Coimbra" de António José Soares) refere que, em Abril de 1903, “A comissão de operários formada para auxiliar as vítimas da Revolta do Grelo recebeu mais de 300 mil réis que foram conseguidos pelos estudantes, nos bandos precatórios que organizaram na cidade."
    Zé Veloso

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  3. Meu caro amigo
    In "À Porta Férrea-Serrão de Faria-Junho/1946-pag 43, o autor está confuso, pois refere uma greve hortaliceira em 1902 ou 1903" Em 1902, o autor era aluno(3º curso) como indica a listagem que anexou.Não muda nada à provável ligação à "reminiscência de um molho de bróculos".
    Acrescento que o livro é de muito interessante, mas dificil, leitura-com dicionário ao lado-pelos termos usados.Descreve tipos(estudantes,tricanaS,tascas, casas de prego, etc.)durante os anos 1900-1903.
    Abraço

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  4. Excelente. Muito obrigado por este texto.
    O costume das latadas foi copiado no Porto nos anos 80, mas numa versão muito mais pobre (e julgo que sem consciência de que não existia tal costume no Porto antes da interrupção das tradições académicas nos anos 70).
    Já agora, uma pergunta: essa imposição de insígnias inclui (ou incluía) algum ritual de imposição ou trata(va)-se só de começar a usá-las nesse cortejo?

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  5. Obrigado, João Caramalho Domingues.

    No meu tempo não existia qualquer ritual. Apenas tinha de ser depois das 10 horas da manhã, no dia da latada. E cada um o fazia como queria. Ou saía de casa já com o grelo ou as fitas de fora, se depois das 10 horas; ou saía com as insígnias já colocadas na pasta mas metidas para dentro e, pelas 10 horas, soltava-as para fora.

    O art.º 258 do Código das Praxe de 1957 diz que «as insígnias que irão usar-se no decurso do ano lectivo são postas no dia da latada ou cortejo respectivo às 10 horas da manhã». No entanto, o Código só era conhecido dos praxistas ferrenhos em cujo grupo eu não me inseria. Só vim a conhecê-lo muito depois de sair de Coimbra, quando comecei a interessar-me pelo estudo destas matérias. O direito da praxe era sobretudo consuetudinário, passava de boca em boca e de geração em geração sem necessitar de papéis escritos.

    Vou colocar hoje no post uma fotografia onde estou com mais 3 colegas grelados, no dia da latada, a descer a Av. Sá da Bandeira a caminho do Mercado D. Pedro V para comprar o nabo. Deverá ter sido tirada entre as 10 e as 11 da manhã.

    Um abraço, Zé Veloso

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  6. Boa noite
    Reler a vasta literatura coimbrã tem a vantagem de, frequentes vezes, nos fazer notar pontos que, na voragem da leitura, passaram despercebidos. Foi o que aconteceu, com – Estudantes de Coimbra-B-M. Costa e Silva, 1903, em nota de fundo de página 62 “ As cores distinctivas das differentes faculdades são: teologia, branca; direito, encarnado; medicina, amarella; mathematica, azul e branca e filosofia, azul; Além d’estas houve a verde, de direito canónico. Nos cursos de farmácia, amarela e azul; no liceu, verde.”
    Repito:”Nos cursos de farmácia, amarela e azul”. Não sabia e não recordo ter encontrado tal referência noutro local, mas poderá existir.
    No sitio https:// woc.uc.pt/ffuc, anota-se que :” O ensino farmacêutico existe na Universidade de Coimbra desde finais do século XVI. Nessa época foi instituído um regime de formação de boticários que era essencialmente prático. Este regime manteve-se em vigor até à reforma pombalina da Universidade (1772). Neste ano foram fundados… . e um Dispensário Farmacêutico.
    Este regime manteve-se até 1836 ano da fundação da Escola de Farmácia anexa à Faculdade de Medicina. Entre 1902 e 1932 surgiram diversas reformas do ensino farmacêutico e da própria instituição. Desde a autonomia relativamente à medi cina, em 1911 reforçada em 1918, até à fundação da Faculdade em 1921”.
    Abraço

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    1. Caro Ricardo,
      Outra coisa me espanta: «no liceu, verde». Nunca em tal tinha ouvido falar. É assunto a investigar com mais cuidado.
      Um abraço,
      Zé Veloso

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