domingo, 2 de março de 2014

A VIOLÊNCIA NA PRAXE

Está quase a fazer dois anos que esta foto apareceu no diário As Beiras online, a propósito de uma notícia relacionada com abusos da praxe em Coimbra. A foto diz tudo: a prepotência sobre o mais fraco e indefeso, a posição humilhante e degradante das caloiras, a presença sádica das praxistas de turno e, para que o quadro fique mais impressivo, a constatação de que a máxima o homem é o inimigo do homem resulta ainda mais chocante quando conjugada no feminino.
Por essa altura, entendendo eu que as praxes devem ser reguladas exclusivamente pelos estudantes, escrevi no Penedo d@ Saudade – TERTÚLIA: se os actuais estudantes universitários se não empenharem fortemente no reverter desta situação, alguém o irá fazer por eles. O tempo correu e, na sexta-feira passada, sob pressão da reacção da opinião pública aos acontecimentos do Meco, a Assembleia da República aprovou por unanimidade uma resolução contendo um conjunto de medidas visando acabar com as praxes violentas e abusivas, bem como com práticas degradantes e atentatórias da dignidade humana ligadas a essas mesmas praxes. E os estudantes deixaram passar uma bela oportunidade para afirmarem a sua tão apregoada responsabilidade e a sua tão desejada autonomia. Pior, viraram contra si o país!
Como foi possível chegar até este ponto?
Na minha Coimbra de 50 e de 60, a praxe estava profundamente enraizada na cidade, uma cidade pequena e fechada, onde ao longo de mais de quatro séculos as suas duas sociedades – a futrica e a académica – se tinham sabido acomodar uma à outra, numa relação de dependência recíproca que, pese embora as inúmeras escaramuças de percurso, fazia com que a cidade se revisse na sua academia e a academia se revisse na sua cidade.
Como bem explica António Rodrigues Lopes (1), a sociedade académica estruturava-se então – pelo menos, já desde o séc. XIX – de acordo com os cânones de uma sociedade tradicional, com um projecto socio-político, personalizado, isto é, dotado de identidade bem definida, não lhe faltando sequer os instrumentos para exercitar ou articular a sua sociedade política tendo por suporte uma classe hierárquica estruturada apenas em função do grau académico e não do nascimento ou do acaso.
Essa sociedade tinha, no meu tempo, um universo social (estudantes universitários, dos liceus e dos colégios particulares), um território de vigência (a cidade de Coimbra), um núcleo territorial de dominação (a Alta), santuários onde nem a polícia ousava entrar (da Porta Férrea para dentro e as Repúblicas) e uma lei – a Praxe – uma praxis consuetudinária, passada (e alterada) de geração a geração, cujo primeiro código digno desse nome surgiu apenas em 1957 mas era, dez anos mais tarde, à data da minha saída de Coimbra, totalmente desconhecido da larga maioria dos seus estudantes, entre os quais eu me incluía. Porque a força da praxe não estava no Código mas sim na tradição, que tal código se limitou a decantar e registar.
Mas a dita sociedade tradicional tinha também os seus meios de policiamento para que a sua lei – a praxe – fosse cumprida (as trupes e as revistas por parte dos mais graduados ), os seus tribunais (funcionavam nas Repúblicas), os seus órgãos de recurso e de interpretação da lei (o Conselho de Veteranos), o seu promulgador dos decretos, espécie de Presidente da República (o Dux Veteranorum), e o seu órgão máximo de decisão (as Assembleias Magnas), a quem cabia decidir nas grandes matérias, nomeadamente greves escolares e luto académico.
Analisando as coisas por outro prisma, pode dizer-se que havia, em simultâneo, vários poderes e realidades que contribuíam, cada um a seu modo, para a continuidade, a criatividade, a afirmação e o bem-estar da sociedade académica:
  • desde logo, a hierarquia individual dos seus membros perante a praxe, a qual reflectia a progressão académica dentro do curso, ou seja, a hierarquia do mérito;
  • os veteranos e o seu conselho, reflectindo o peso da antiguidade, o saber dos velhos, o “conselho dos anciãos”, essenciais a uma sociedade cuja lei foi não-escrita durante séculos;
  • a Associação Académica de Coimbra, reflectindo o poder eleito pelos estudantes, desde 1887;
  • as Repúblicas (e o Conselho de Repúblicas), as mais fiéis guardiãs do espírito da praxe (para além do exercício da autogestão e da iniciação política), já que a sua existência e a sua memória se mantinham vivas para além da passagem efémera de cada repúblico por Coimbra;
  • os organismos como a Tuna, o Orfeon, o TEUC e tantos outros que, nas suas digressões, levavam a chama da Academia de Coimbra aos quatro cantos do mundo;
  • as secções culturais e desportivas da AAC, onde era possível exercitar o espírito e o corpo;
  • a Sociedade Filantrópico-Académica, que teve um papel determinante no apoio aos estudantes mais carenciados no séc. XIX;
  • a Briosa – equipa de futebol da AAC – elemento agregador, uma causa domingo a domingo renovada, que ainda hoje "guarda para si" a denominação pela qual a Academia de Coimbra era conhecida muito antes ainda de haver futebol;
  • as festas académicas, com a sua "liturgia", à cabeça das quais a Queima das Fitas, onde (quase) todos subiam um escalão na hierarquia da praxe;
  • os antigos estudantes espalhados pelo país e pelo mundo, quer pelo testemunho individual, alguns através da escrita das suas memórias, quer através das costumadas visitas de curso por alturas da Queima quer, ainda, pela militância das várias Associações de Antigos Estudantes de Coimbra.

Costuma dizer-se que a história nunca se repete. E é fácil de compreender que – depois de a praxe ter sido suspensa em 1969 e retomada duas a três gerações de estudantes mais tarde, já em pleno período democrático pós-revolucionário e com alterações profundas na sociedade – seria impossível que renascesse nos mesmos moldes e que não se sentisse, até, órfã de referências importantes e fora de contexto, como uma flor guardada em estufa que perdeu de vista o seu jardim.
Mas as praxes (que não a praxe, que essa não se transplanta) pegaram de estaca, até noutras paragens, mesmo em sítios cuja terra não estava preparada para as acolher. Terá começado com as Queimas – festa rija é sempre de apoiar! – e com o uso da capa e batina, e vá de estender-se ao que em Coimbra estava já só em lume brando nos anos 60: a relação de poder dos doutores para com os caloiros, o “praxar”. À falta de tradições ou querendo ir, até, para além delas (onde é que eu já ouvi isto?), vá de escarafunchar no Palito Métrico e de imitar as praxes violentas de há séculos atrás, vá de procurar no YouTube a ver se ainda se podia ir mais fundo,… e o resto está à vista de todos e acabou por contaminar também Coimbra, o sítio onde até teria sido fácil resistir aos exageros que se tornaram virais!
Voltando à sociedade tradicional académica que vigorou até 1969, ela vivia, no meu tempo, em perfeito equilíbrio com a sociedade futrica, a qual contemporizava com os seus excessos (que sempre existiram) e compreendia a sua bizarria. Mas tal equilíbrio só foi possível, porque a praxe evoluiu ao longo dos séculos sempre no sentido civilizacional ou seja, acompanhando o evoluir da sociedade. Assim, as praxes bárbaras que nos são descritas no Palito Métrico de meados do séc. XVIII foram-se humanizando ao longo de todo o século XIX e, nomeadamente, depois da República (1910) e do interregno praxístico de uma década que se lhe seguiu. Como exemplos simbólicos desta evolução, lembro que o selvático Canelão é abolido no final do séc. XIX, restando dele os pontapés-da-praxe com que a equipa de futebol da Briosa passou a bridar os recém-chegados ao team; e lembro ainda que a mais violenta das insígnias da praxe – a moca – desapareceu por completo das mãos dos estudantes, determinando o Código da Praxe de 1957 que, em contexto de trupe, a moca possa ser «substituída por um pau de fósforo com a cabeça por queimar»
Quem for hoje ler o Código de 1957 de forma literal, sem qualquer contextualização na academia coimbrã de então e sem entender os simbolismos que estavam em jogo, verá ali horrores, como seja o bicho e o caloiro serem considerados animais, estando, até, o caloiro situado 2 furos abaixo de cão! Pois devo aqui dizer que, se assim era, os animais do meu tempo eram bem mais respeitados do que os de hoje, pois nunca na minha Coimbra vi caloiros postos de quatro, postura de humilhação efectiva – e não apenas figurada - que é hoje entendida nos meios académicos que discutem estas coisas na internet como perfeitamente normal para um caloiro, entendendo-se, apenas, como anormal e ofensiva, a sua aplicação a não-caloiros!
E este simples exemplo ilustra bem que o que está por detrás da violência que as praxes voltaram a ostentar é, também, um retrocesso civilizacional!
E eu, não desculpando, até entendo! É que, se a praxe académica sempre evoluiu no sentido civilizacional, como poderia ela ter evoluído agora no sentido da tolerância, da humanização e da cidadania, numa sociedade onde a violência gratuita é exibida diariamente até à náusea, onde o poder se confunde com pesporrência e se exerce com arrogância, onde os divertimentos mais bacocos e a humilhação consentida fazem parte dos reality shows em  prime time, onde a Casa dos Segredos obtém o máximo das audiências na televisão?
Mas, no entanto, a sociedade moveu-se, agitou-se, sentiu-se mal! O que quer dizer que as praxes foram longe de mais e o equilíbrio tácito se rompeu. E mesmo que as boas intenções legislativas da A. R. não dêem em nada, já nada voltará a ser como dantes, porque a sociedade acordou. Porque mesmo que a sanção legal não surja, haverá a sanção social. A sociedade, uma vez alertada, vai passar a estar atenta.
Resta aos estudantes moverem-se também, sob pena de o equilíbrio se romper mas, agora, em sentido contrário. E a Academia de Coimbra, por nela residir a raiz das tradições académicas, tem especiais responsabilidades no movimento que se impõe. Assim os seus estudantes e as suas lideranças estejam à altura do momento!
Zé Veloso
Nota 1: Esta análise não pretende branquear excessos e deturpações da praxe que também existiam nas décadas de 50 e 60 do séc. XX. Nem ignorar os diversos movimentos de opinião e rebeliões contra a praxe que existiram em diversas épocas, tão ou mais animados do que aqueles a que hoje assistimos.

Nota 2: Para quem iniciou o post afirmando que "as praxes devem ser reguladas exclusivamente pelos estudantes" poderá parecer estranho que o termine com uma exortação aos actuais estudantes e líderes da Academia de Coimbra. Acontece, porém, que a praxe, as tradições académicas de Coimbra, esse imenso património imaterial que é usufruído e gerido pelos actuais estudantes, não é apenas pertença sua. Ele pertence a todos os que em Coimbra estudaram, bem como à Universidade e à própria cidade de Coimbra.
(1) A Sociedade Tradicional Académica Coimbrã. Introdução ao Estudo Etnoantropológico, Coimbra, 1982.

21 comentários:

  1. Gostava entao de perguntar em que consistiam as praxes no seu tempo. O que faziam aos caloiros de modo a que a praxe fosse assim tão civilizada como diz?

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    1. Caro Duarte, obrigado pelo seu comentário.

      Vou responder-lhe no contexto muito restrito de “praxe = relação de poder entre doutores e caloiros”, uma vez que é esse o mote principal do meu post.

      Nos anos 50-60 (fiz o liceu pelos 50 e fui universitário pelos 60), os caloiros eram mobilizados, normalmente no intervalo das aulas,
      (i) para breves “performances”, e.g., discursar sobre… declarar-se a uma colega ou a uma das “mamudas” (para quem não seja de Coimbra, estátuas de pedra seminuas em frente da Porta Férrea) e outras coisas razoavelmente inofensivas, normalmente com alguma graça; ou
      (ii) para comparecerem em Repúblicas, fora dos períodos de aula (quarta ou sábado à tarde), onde as tarefas poderiam ser diversas: trabalhos domésticos, montar guarda de honra à República apresentando armas a algum(a) notável que passasse na rua, outras formas de divertir a rapaziada, algumas com piada, outras estúpidas só para chatear o caloiro, porém, sem que houvesse violência, posições de 4 ou de 3, flexões ou o mais que fosse; ou
      (iii) para as latadas, onde lhes cabia, entre outras coisas, levar os cartazes; tratando-se de um cortejo trapalhão, apareciam trajados como entendessem, muitas vezes o pijama; se nada de anormal trouxessem vestido, vestiriam o casaco (ou a batina, já me não recordo) do avesso.
      Estas mobilizações concentravam-se no início do ano lectivo, perdendo a sua força a partir das latadas, que tinham lugar depois de terminados os exames de Outubro.
      Num almoço recente com colegas que foram caloiros nas décadas de 50 e 60, perguntei a quem estava mais por perto na mesa quantas vezes tinha sido mobilizado para uma República: as respostas variaram entre zero e duas. Vale o que vale…
      Quanto ao mais, o caloiro tinha as restrições de circulação nos espaços públicos da cidade que, em maior ou menos grau (consoante o lugar na hierarquia) a todos tocavam, excepção feita, salvo erro, aos veteranos.

      A sua última frase, que qualifica a praxe da altura de “tão civilizada”, tem que se lhe diga, embora eu entenda o que quer dizer com ela. Como é sabido, todos os valores civilizacionais são relativos, dependem da época, das sociedades, dos costumes. O que para uns é civilização para outros pode ser barbárie. O que eu procuro fazer neste post é estabelecer uma relação entre determinados parâmetros que nas sociedades europeias aferem o grau civilizacional, nomeadamente, os parâmetros da violência e do abuso de poder / abuso de posição dominante; e, para além disso, apresentar algumas das razões que, em meu entender, permitiram que, em pleno século XX, fosse relativamente pacífico haver uma cidade onde, quer se quisesse quer não – notar que a praxe era de cumprimento universal, não era facultativa! – os estudantes estavam privados de direitos fundamentais do indivíduo, tais como a livre circulação nos espaços públicos e a não obediência a ordens de poderes não reconhecidos juridicamente.

      Zé Veloso

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  2. Eu fui caloiro em 1961 e estudante da UC até 1966. Nunca fui "praxado" como agora e diz, mas até aproveitei a praxe para conhecer amigos e amigas! Depois das 18 horas havia o perigo dos caloiros serem rapados se fossem apanhados por uma trupe (grupo de estudantes trajados a rigor e com ceremonial que começava na porta férrea), mas estavam protegidos contra a rapadela se alguma senhora, ou jovem menina lhe desse o braço, se levasse uma guitarra ou uma viola e tocasse umas notas ou se tivesse com ele uma garrafa de vinho para beber com os "doutores". Havia ainda a protecção de sangue, que era a da família mais velha (pais ou irmãos).
    As latadas, como muito bem disse o Zé Veloso, foram utilizadas no meu tempo de caloiro e nos anos seguintes para ostentarmos cartazes contra o regime do Estado Novo, a democratização do ensino, a igualdade dos sexos, etc. Basta consultar as fotos existentes dessa altura para verificar o que aqui afirmo. É claro que havia os praxistas "imbecis", cujos nomes recordamos até hoje, e que não deixaram nem amigos nem saudade em Coimbra.
    Acho que os estudantes da academia de Coimbra têm o dever de não deixar que as velhas tradições sejam adulteradas, que a dignidade humana não seja nunca posta em causa, e que só quem queira participe nas festas e não nas chafurdices!

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    1. Fui caloiro em 1956. Fui para o Palácio do Conde de Monsaraz, logo acima do CADC - Centro Académico de Democracia Cristã. Situava-se no Número 8 da Rua dos Militares - hoje já demolido). Nela habitavam cerca de duas dúzias de estudantes, predominando Cabo-Verdeanos, Açoreanos e ex-alunos do Colégio de Tomar).

      Eram oito os caloiros. Todos tiveram orgulho em serem rapados... Até temos uma foto de conjunto a exibir o resultado.

      Recordo com saudade a praxe a que fui submetido... Eis alguns exemplos:

      1. Mobilizado para todas as Latadas para servir de figurante e porta cartazes, normalmente com piadas aos políticos e aos professores.

      2. Numa das Repúblicas fui praxado: Beber um copo de água com um garfo! Demora mas é possível. Ao fim de uma hora e 45 minutos tinha amigos em todos os Repúblicos.

      3. Noutra República fui julgado por um "crime de lesa-majestade". Tanto eu como o meu advogado de defesa - outro caloiro - fomos condenados ao rapanço.
      Teve piada estar nu, sentado num penico cheio de água rodeado de doutores de capa e batina iluminado por velas dentro de abóboras, talhadas para esse efeito.
      Nunca me ri tanto...

      4. Nos gerais, um Doutor interpelou-me para fazer uma declaração de amor a uma Doutora que por ali passava. Ganhei dois amigos, nesse dia. Ficaram namorados!

      5. Na Faculdade de Letras, um "Doutor" de voz autoritária mobilizou-me para lhe suportar o cinzeiro enquanto bebia a sua bica com as "Doutoras". Apresentou-me a todas elas, pagou-me o café e fiquei a conhecer mais gente que sempre sorriam e dirigiam palavras simpáticas quando me viam.

      5. Outro "Doutor" mobilizou-me para levar uma caixa de ossos a uma Caloira de Medicina, que lhos tinha comprado. Para estudar anatomia dava jeito ter um esqueleto à mão. Foi fácil transportar o caixote de cartão, em forma de cubo, pois deslizava bem no corrimão das Escadarias Monumentais. Mais agradável foi ver as moças no lar onde se hospedara a dita caloira...

      A arte de amostragem exige isenção para se obter uma amostra representativa. A vivência de caloiro em Coimbra teve tal impacto, que quando fomos para o Porto, concluir o Curso, transportámos connosco tal vivência, fundando a Real República dos LySOS, que ainda hoje existe, 55 anos depois.

      Tenho imensa mágoa quando vejo a praxe desvirtuada. Eusinto que a nossa sociedade melhorava com duas coisas simples: Ser submetido à praxe sã de Coimbra e fazer serviço militar obrigatório.

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    2. Caros Luís Filipe Colaço e Augusto Carmona da Mota,
      Obrigado por, com os vossos documentários, enriquecerem o conteúdo do blogue.
      Um abraço,
      Zé Veloso

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    3. "Teve piada estar nu, sentado num penico cheio de água rodeado de doutores de capa e batina iluminado por velas dentro de abóboras"

      Isto e as rapadelas parecem-me tão ou mais "descivilizadas" e indignas para com os caloiros do que uns olhos no chão ou uma posição de 4. Já para não mencionar que tais actividades têm algo de humilhante intrínseco, ainda que não fosse essa a intenção.

      Mas talvez seja so eu a ter esta impressão, que para mais sou rapariga e nao ia gostar muito que me rapassem o cabelo ou de estar nua à frente de quem quer que fossem as doutoras (já partindo do princípio que nao seria à frente de doutores).

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  3. No vosso tempo o caloiro/novato tinha que olhar para o chão quando um "doutor" o abordava? É que hoje explica-se ao caloiro que isso é uma forma de respeitar o superior hierárquico..é que faz-me lembrar os prisioneiros da segunda guerra mundial e vietname, estão sempre a olhar pro chão.. vejo mais nisso um sinal de submissão do que de respeito..no vosso tempo também faziam isso ou o caloiro/novato podia olhar para os superiores?
    David

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    1. Caro David, pergunte sempre que queira.
      O seu comentário é bem pertinente.
      No meu tempo, o caloiro (a terminologia novato já não existia) olhava o doutor de frente. A hierarquia era bem conhecida mas não passava nem pela humilhação nem pela reverência (salvo situações excepcionais, abusos de poder, que sempre ocorreram mas não eram a regra). O caloiro olhava de frente e falava de frente. E convivia sem restrições com os doutores, sempre que para tal houvesse ocasião.
      A situação que coloca enquadra-se no tal retrocesso civilizacional que refiro no corpo do post.
      Tenho seguindo um grupo de discussão sobre as praxes no facebook, onde aparecem as ideias mais desvairadas. Um dia destes, alguém se indignava porque um doutor ou veterano namorava uma caloira e, como tal, parecia mal que andassem de mãos dadas em público, sendo ela de uma classe inferior.
      Mas onde estamos nós? Na Índia?
      Um abraço,
      Zé Veloso

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  4. Fiquei esclarecido.
    Acho que devem ter proibído os caloiros andarem com veteranos para não haver abusos de poder, não faço a mínima idéia... Na minha faculdade também é um tabu, como deve ser na maioria das Universidades! Caloiros não podem relacionar-se com doutores, nem os caloiros podem ter relações amorosas entre eles.
    Eu acho ridículo proibirem, e mais.. até pode ser mais tentador, porque o fruto proibído é o mais apetecido!
    É um prazer obter conhecimento pelos antigos estudantes, um muito obrigado Sr. Zé Veloso.
    David

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    1. Caro David,
      Acho que está faltando algum bom-senso nisto tudo.
      Está na vossa mão alterar as coisas.
      A praxe é para ser vivida e gerida pelos actuais estudantes.
      Um abraço,
      Zé Veloso

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  5. Também eu vivi a Praxe de Coimbra nos anos 50 e 60, como aluno do liceu (D.Joao III) e da Universidade de Coimbra (FC) e depois no Porto (FEUP), onde também tive o privilégio de viver na RR dos Ly-S.O.S., para mim a "Praxe é só uma a de Coimbra e mais nenhuma!".
    Nada tenho a apontar ao que se passou e vivi nesses anos, alguns praxistas andavam a pedir um "par de estalos", sem dúvida mas, em geral, foi algo de bom, divertido e que ajudou a criar e fortalecer muitas amizades.
    Conheci "caloiros" que se recusaram a aceitar (se bem me lembro da frase-chave ...) a "está debaixo de trupe" (por não aceitarem a oportunidade da "apanha" e/ou existir possibilidade de reais diferenças "dimensionais comparativas"...) e outros casos de "desobediência" similares.

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  6. Nunca fui rapado mas tive de efectuar algumas "fugas" mais ou menos emocionantes ...
    Por exemplo, uma noite em que fomos, eu e outro caloiro amigo, o Camilo, ver um qualquer espectáculo na TV, no cafe RITZ, porque,pensávamos, havia protecção simples nessa noite e íamos acompanhados por amigas que garantiriam, pensávamos nós, a necessária protecção.
    Afinal, soubemos já no café, nessa noite só existia a chamada "protecção de sangue" só possível de irmã.De amiga não. Isto é, estávamos feitos e acabados. O "rapanço" era uma garantia absoluta e indiscutível nessa noite!
    Formaram-se então, por nossa causa, várias e numerosas "trupes" à porta do Cafe Ritz para nos receberem nos seus braços ... (nunca saberei como tantos iriam partilhar apenas duas "presas" ... ).
    A nossa "alegria", minha e do Camilo, enquanto jogávamos uma "ultima partida de bilhar" antes de nos entregarmos à saciedade de tantos, é que eles não tinham visto o espectáculo na TV (futebol ou festival da canção) tal a vontade de nos apanhar.
    Mas, um de nós, eu ou o Camilo, numa necessária e ultima ida ao WC, antes do cadafalso, notou a existência de pequenas janelas que davam para as traseiras..e, muito possivelmente, também para a "salvação e liberdade".
    Contentes com a descoberta, apesar de um tanto incerta ainda, sem nada referirmos a quem quer que fosse (nem perguntámos aos empregados do café para onde davam as janelas não fosse algum deles, traiçoeiramente, informar algum amigo no "exterior", prolongámos a partida de bilhar para melhor saborearmos o prazer da fuga e da inexcedível "tristeza" que iriam sofrer as dezenas (acreditem...não me engano...eram mais que muitos lá fora à nossa espera...) que nos esperavam na Avenida.
    A saída pela janela, cerca de uma hora antes da hora prevista para o encerramento do café, foi difícil para mim (uma questão dimensional...) e encontrar um caminho que nos levasse por quintais e ruas estreitas (estreita à largura para as atravessar em corrida lesta..) em segurança até nossa casa, um quintal algures na zona do liceu D.João III, foi uma odisseia demorada e difícil, ora silenciosa ora barulhenta (algumas quedas não previstas na deslocação),levaram-nos em segurança, e com todo o cabelo até nossa casa.
    Foi difícil conseguir convencer um vizinho importante, dono de um dos quintais por onde tínhamos passado nessa noite, que não fôramos nós (infelizmente...) os autores da redução quantitativa das utentes dum galinheiro de propriedade do referido senhor, aparentemente sucedida nessa mesma noite. Mas, para travar a pretendida queixa às autoridades do evento que o tal senhor julgava saber termos nós sido os autores, a intervenção rápida, atenta e eficaz das "Senhoras", donas da casa onde ambos tínhamos quarto alugado, foi absolutamente fundamental e indispensável.
    ("Senhoras da Casa" penso também ser uma figura inalienável da "Mistica Coimbrã"!..)
    Nada de mau desejámos, em momento algum (nem as nossas companhias dessa noite) aos que tão lestamente formaram "trupes" para nos apanhar. Nós sabíamos quais eram regras e arriscámos. Por acaso correu bem. Foi giro e divertido para nós e, soubemos depois, para muitos dos "trupistas" à nossa espera o resultado final também foi divertido.

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    1. Caro Élio, belo depoimento!
      Também eu passei por situações do género no Madeira, só que eu já tinha o caminho bem estudado. Era um jogo de gato e do rato, com as suas regras bem definidas, que só eram quebradas por algum praxista mais manhoso e recalcado - que também por lá os havia e tive o azar de esbarrar com um deles - mas esses tristes deverão ter ficado mesmo tristes e azedos para o resto da vida.
      Um abraço, Zé Veloso

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    2. E dizem, depois de ouvir este Engº Augusto, filho do Sempre Lembrado "Pantaleão" que a praxe é uma violência? Tenham juízo e não a adulterem!

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  7. No seu tempo os caloiros andavam na rua de capa e batina? Se não, quem não usava capa e batina continuava sob a alçada da Praxe, se fosse identificado como caloiro ou esta apenas se aplicava a quem trajava?
    As trupes apenas saíam para "caçar" caloiros ou também os doutores estavam sob a sua alçada? Se sim, as protecções existentes para os caloiros, também se aplicavam a doutores?

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    1. Viva, Tiago Marques. Obrigado pelas perguntas.

      1. No seu tempo os caloiros andavam na rua de capa e batina?
      Claro que sim, como era da tradição! E usavam-na exactamente da mesma forma que os doutores. Não havia qualquer limitação, inclusivamente essa invenção canhestra (*) de os caloiros não poderem traçar a capa antes da Serenata Monumental.
      Aliás, o mesmo direito se aplicava aos bichos (alunos do liceu ou colégios particulares), tradição que vem do facto de o ensino secundário ter vivido durante alguns séculos no “campus universitário”.
      (*) Digo canhestra porque, se a praxe se destina a integrar, não me parece fazer sentido colocar limitações a um elemento integrador fundamental que é o uso do traje, uma das coisas que mais fomenta o espírito de pertença a um grupo.

      2. A segunda pergunta fica prejudicada. Mas, para que não restem dúvidas, para um caloiro, o estar ou não debaixo da alçada da praxe era independente da forma como estivesse vestido. O que o poderia colocar a salvo – dependendo das circunstâncias – eram coisas como estar protegido por um familiar ou um doutor, mas não o facto de estar “à futrica”.

      3. Quando as trupes saíam, iam claramente à procura de caloiros e bichos para rapar. Mas se, de caminho, encontrassem doutores em locais onde não pudessem estar àquelas horas, aplicavam-lhes as respectivas sansões de unhas previstas no CP. Faço notar que, de acordo com o CP der 1957, havia limitações de circulação – e correspondentes sanções de unhas aplicar por trupe – até ao grau de quintanista; porém, a partir de terceiranista ou quartanista, seria improvável ser-se apanhado por uma trupe, face ao horário que estava em jogo.

      E é tudo. Pergunte sempre que queira.
      Zé Veloso

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    2. Boa noite. Muito obrigado pelo esclarecimento.
      A minha primeira pergunta era mais no sentido de saber se era comum doutores e caloiros continuarem a usar o Traje mesmo fora do período das aulas (no horário em que as trupes saíam) e perceber se estar de capa e batina era requisito obrigatório para ser aplicada a Praxe (tanto para quem a exercia como em quem era exercida). Era comum então para um caloiro ou doutor, mesmo à futrica ser sancionado por infringir a Praxe?
      Pelo que percebi, o uso de capa e batina era comum e, de um modo geral, os estudantes aceitavam a Praxe. Mas havia uma parte dos estudantes que já não trajavam certo? E sendo o Traje de carácter académico, havia quem o usasse mas não se considerasse praxista, não aceitasse a Praxe? O que gostava de perceber é como a Praxe de relacionava com todos, se apenas os que se consideravam praxistas seguiam as suas regras ou ela abrangia os estudantes na sua totalidade? E principalmente, como era esta relação da Praxe com os estudantes no Porto (onde pelo que li, o uso do traje académico já não era generalizada como em Coimbra)? Quais foram as principais diferenças que observou no exercício da Praxe entre Coimbra, um meio fechado como referiu no post e o Porto, uma cidade maior e onde acredito, a Praxe não estivesse tão enraizada no meio estudantil?
      Obrigado pela atenção.
      Tiago Marques

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    3. Já no seu tempo existia praxe a caloiros à futrica. Isso era uma prática comum no tempo em que estudou em Coimbra? Tem ideia se essa prática começou quando o uso obrigatório do traje académico foi abolido ou era um costume mais recente?
      Então, durante as décadas de 50 e 60, exercia-se Praxe sobre caloiros, quer trajados, quer à futrica sem qualquer distinção? O caloiro poderia não trajar uma única vez durante o seu 1º ano e ser praxado do mesmo modo que um que trajava regularmente?
      E o mesmo acontecia com os doutores? Estes estavam também sob alçada da Praxe quer trajados, quer à futrica?
      Sendo o uso do traje, condição necessária para estar na Praxe (não sei se concorda comigo), como é que a comunidade estudantil da altura via o exercício da Praxe em caloiros/doutores à futrica? E, principalmente, como era visto o direito concedido aos veteranos de exercer Praxe à futrica? Era comum ou a maioria continuava a usar o traje académico? (pergunto isto porque segundo apurei, este direito teria sido concedido apenas pelo CP de 1957)

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    4. Caro Tiago Marques, Só hoje me apercebi das suas "contra-perguntas" de 21/3 e 2/4, que agradeço. Respondo-lhe, logo que possa. Zé Veloso

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    5. Caro Tiago Marques, refiro a sua pergunta de 21 Março
      Pergunta-me se «era comum então para um caloiro ou doutor, mesmo à futrica ser sancionado por infringir a Praxe». Repito o que acima afirmei: SIM.
      Quanto à questão da aceitação da praxe: até 1969, em Coimbra, a praxe era de aceitação obrigatória e pronto! Quem não gostasse, que fosse estudar para outro lado! Parece estranho, mas era mesmo assim; e era aceite como tal pelas sociedades estudantil e civil da cidade. É precisamente esse fenómeno único e irrepetível noutra cidade e nos dias de hoje que procurei explicar no post. Ninguém era obrigado a usar capa e batina mas nem por isso estava acima da praxe. Poderia não pôr fitas nem cartola; mas enquanto bicho ou caloiro estava sujeito a praxe de trupe, etc.
      Quanto ao Porto, estive 3 anos (1965-66 a 1968-69) na FEUP e ainda frequentei uma cadeira na FCUP e nunca vi qualquer manifestação de praxe que não fosse a Queima das Fitas.
      Zé Veloso

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    6. Caro Tiago Marques, refiro a sua pergunta de 2 de Abril
      Sobre as várias perguntas que me faz desde o início até «… quer trajados quer à futrica», repito o que já lhe transmiti noutras respostas: em Coimbra, até 1969, estar ou não debaixo da alçada da praxe era independente da forma como se estivesse trajado.
      Sobre as questões que coloca «como é que a comunidade estudantil da altura via o exercício da Praxe em caloiros/doutores à futrica? E, principalmente, como era visto o direito concedido aos veteranos…» nunca assisti a discussões ou preocupações desse tipo.
      Tanto quanto sei, os redactores do CP de 1957 procuraram plasmar num documento as práticas que existiam à altura. Admito que houvesse situações dúbias ou dúplices, onde fosse necessário tomar partido por uma solução entre várias; mas parece-me estranho que se tenha "inventado" uma solução de raiz. Pode elaborar mais sobre a afirmação «pergunto isto porque segundo apurei, este direito teria sido concedido apenas pelo CP de 1957?»
      Zé Veloso

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