terça-feira, 10 de março de 2015

TEIXEIRA, UM FUTRICA ESTUDANTE!

Parte I
Quem não se lembra do Teixeira? – Ó ‘tor, tem aí um cigarro? – Não fumo, pá! – Umm… ó ‘tor, então paga-me um fino e uma sandes?
Figura bizarra, fisicamente distorcida, um misto de homem e criança… conheci-o na década de 50, era eu bicho no D. João III – hoje José Falcão. Nessa altura ele engraxava numa barbearia que ficava no 13 da Tenente Valadim, um pouco à frente do quiosque que faz esquina com a Praça da República. O corte de cabelo ficava em 4$00, mais 5 tostões de gorjeta e outro tanto para o Teixeira engraxar, ou seja, com 5 mil reis estava a festa feita.
O Teixeira, que décadas mais tarde viria ser conhecido por “Taxeira”, andaria nessa altura pelos 30 anos mas a sua figura pouco se modificou depois disso. É que o tempo ia passando... e o Teixeira não. As gerações de estudantes foram deslizando à sua frente, à razão de duas por década, mas o Teixeira era sempre o mesmo, ainda que a imagem que ele de nós via se lhe fosse toldando na retina, à medida que a sua imagem em nós tão nítida permanecia.
Estou a vê-lo agora na barbearia! De fato-macaco azul, sentado à minha frente sobre a caixa da ferramenta, por certo em terceira mão e com a madeira surrada do castanho e preto da graxa. Cabelo farto, de poupa à Elvis, barba de uma semana – santos de casa não fazem milagres... – cigarro encharcado ao canto da boca – "Provisórios"? "Definitivos"? "20-20-20"? Talvez “Kentuky”, que a cigarro dado não se olha a marca… – uma perna encolhida, outra estendida na minha direcção. Penso que nessa altura não usava ainda sapatilhas.
Ao que me lembre, era um pouco trapalhão na sua arte: punha a graxa com os dedos, deixava que a dita lambesse as meias do cliente e julgo que, de quando em vez, cuspia no pano para melhor fazer correr o lustro. Olhar ausente, resmungava as últimas da Académica nos raros intervalos que o barbeiro deixava para intervenções alheias. Às vezes zarpava da barbearia sem aviso, para exaspero do Sô António, o qual acumulava as funções de barbeiro com as de patrão e contava com o Teixeira para combater a concorrência da barbearia da porta mesmo abaixo, onde o Sô Carlos lhe disputava a clientela.
Mas o Teixeira, não dava a sensação de ter um gosto especial pela profissão de engraxador, o que só lhe creditava sabedoria. Do que ele gostava mesmo era de ir com a malta! Ir nas latadas, saltar para arena na garraiada, posar em tudo o que fosse fotografia de curso, rasganço ou cortejo da Queima, viver na crava pelas Repúblicas e cafés, apregoar o Ponney e a Via Latina com a sua voz roufenha, conviver de igual para igual com os da sua classe: os estudantes!
E a malta, que na sua irreverência juvenil tantas vezes é cruel para as figuras bizarras da sociedade, a malta brincava com ele mas não o gozava ou, se o fazia, era com o carinho com que se trata um irmão mais novo. Alguém me contou que o Teixeira sabia dois poemas de cor e os recitava (à sua maneira…), a pedido e em cima dum banco; mas só o fazia depois de se certificar de que não andassem futricas por perto. Afinal, ele tinha sido um dia proclamado “Quartanista de Medicina honoris causa” e tratava os caloiros por tu, como conta Reis Torgal no seu Coimbra – Boémia da Saudade. Brincar com a família, sim! Mas nunca na presença de estranhos…
Muita gente tem estórias do Teixeira para contar, desde a ida ao casino da Figueira, de fraque e anel de brasão no dedo, onde só terá sido desmascarado por querer oferecer um pirolito a uma requintada senhora, até ao telefonema que terá feito ao Reitor da Universidade a pedir satisfações, aquando da crise de 69. A última que li foi-me descrita por um amigo [1] nestes termos: «… Foram com ele a Barcelona (Clínica Barraquer), estava ele quase cego. Recusou-se a ir de avião, por lhe provocar imenso medo essa ideia. Disseram-lhe que iriam de camioneta. Pois a cegueira dele era tal que ele embarcou no avião e, durante a viagem, dizia que as estradas espanholas eram maravilhosas, pois o autocarro não fazia ruídos nenhuns. Enfim, a Academia tratava sempre bem as suas "figuras"!»
E tratava… o melhor que podia: dava-lhe abrigo – num torreão (antiga bilheteira) do campo de Santa Cruz, tendo o Zé Freixo e Belmiro por anfitriões – até que um dia lhe fizeram mesmo uma casa de verdade! Dava-lhe de comer nas Repúblicas e cantinas, dava-lhe cigarros, tratava-lhe da cegueira e outros achaques, sentava-o à mesa do café, apaparicava-o… e até tinha lugar cativo no autocarro da Briosa!
Só há alguns anos, lendo o livro de Reis Torgal e pedindo informações a amigos, soube o seu verdadeiro nome. Chamava-se Raúl dos Reis Carvalheira. O nome Teixeira foi-lhe posto por ser sósia dum interior esquerdo do Benfica – Teixeira de seu nome – que a malta odiava por ter deixado os dentes marcados na barriga do Faustino, half-centro da Académica, por volta de 1940. Desde que as parecenças foram descobertas, passaram a chamar Teixeira ao Raúl, que começava a aparecer nas latadas; quanto ao verdadeiro Teixeira, o do Benfica, passou a Academia a chamar-lhe "Cão", por razões que bem se entendem.
O Teixeira nasceu em Torres do Mondego, que na altura ainda era freguesia de Santo António dos Olivais, em 9/9/1926, tendo falecido na Casa dos Pobres, na Rua Adelino Veiga, em 29/2/2000.
A última vez que o vi foi já há muitos anos. Achei-o feliz. Uma espécie de lenda viva, muito acarinhado, muito cegueta e, talvez por isso, pairando um pouco acima do quotidiano. Que se passou desde então? Como viveu os últimos anos? Como morreu? Não sei. Mas admito que tenha sido em paz. Quem tinha uma família do tamanho da Academia não se deve ter sentido sozinho.
Parte II
A origem do nome Teixeira está explicada mais acima. Porém, a partir de determinada altura na década de 80, o Teixeira passou a ser igualmente conhecido por “Taxeira”, ao que se supõe, devido «à taxa que se encarregava de cobrar através do apelo: “moedinha, ó sócio”» [2] . No início dos anos 90, os dois nomes ainda coexistiam; mas quando falamos com estudantes que chegaram a Coimbra mais tarde, verificamos que estes já só retiveram o nome “Taxeira”.
E foi “Taxeira” que ficou registado na placa que se encontra à entrada de uma pequena rua transversal à Rua de Aveiro, já que em 2007 a edilidade de Coimbra resolveu atribuir o nome de uma rua da cidade à memória desta ilustre figura, cuja última profissão conhecida foi a de ardina. [3]
Mas quem era, afinal, o verdadeiro Teixeira, o do Benfica, o tal que em Coimbra ganhou a alcunha de “Cão”? Ouçamos, então o contraditório, pela pena do blogue Glórias do Passado, de cuja extensa biografia aqui transcrevo apenas um curto extracto [4]:
«O popular “Semilhas”, “Gasogéneo” ou “Marreco” foi um dos mais emblemáticos e categorizados futebolistas portugueses da década de 40, essencialmente, envergando, com êxito, as cores do SL Benfica, do Vitoria SC e também de Portugal, tornando-se mesmo, no primeiro jogador açoriano a representar as Selecção Nacional. Natural da Horta, Ilha do Faial, nos Açores, Joaquim Teixeira, o seu verdadeiro nome, nasceu no dia 18 de Março de 1917.» Era, portanto, quase dez anos mais velho que o seu sósia, o nosso Teixeira.
A Parte I desta crónica foi escrita em 2/3/2011, sob o título “TAXEIRA”, UM FUTRICA ESTUDANTE. Posteriormente, entendi ser mais adequado alterar o título para TEIXEIRA, UM FUTRICA ESTUDANTE, como forma de não contribuir para o esquecimento da alcunha original do nosso “Quartanista de Medicina honoris causa”. Para além disso, foram surgindo novas informações que me pareceu interessante acrescentar a uma página que, segundo as estatísticas do blogue, continua a ser razoavelmente visitada.
Foi por essas razões que, ao texto inicial, acrescentei agora a Parte II e reeditei a crónica.

Post Scriptum
Há alguns anos atrás, fui até Coimbra e lembrei-me de revisitar o 13 da Tenente Valadim, curioso de rever a velha barbearia ou o que dela restasse. Queria bisbilhotar, saber quem por lá estaria, se o estabelecimento ainda mexia, se teria mudado de ramo… De facto, tudo deveria estar diferente e eu só esperava poder entrar ou, mesmo ficando à porta, antever a cadeira de barbeiro do Sô António e imaginar o Teixeira engraxando na parte de trás, no enfiamento da janela, enquanto, na porta mais abaixo, o outro barbeiro, o Sô Carlos, procurava afanosamente combater a concorrência da barbearia onde o Teixeira engraxava.
Razão tinha quem dizia que nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes!...
Zé Veloso
[1] Francisco José Carvalho Domingues.
[2] Conforme folheto referente ao descerramento da placa toponímica e dados biográficos da reunião da Comissão de Toponímia de 14 de Maio de 2007.
[3] Para localização da rua, vide Google Maps:
https://www.google.pt/maps/@40.214818,-8.430372,3a,90y,358.78h,89.63t/data=!3m4!1e1!3m2!1skKgFdXq9-DWtWwBa75z1EA!2e0
[4] http://gloriasdopassado.blogspot.pt/2011/01/joaquim-teixeira.html
As fotografias onde aparece o Teixeira pertencem ao Arquivo Formidável da IMAGOTECA – Biblioteca Municipal de Coimbra – e foram cedidas exclusivamente para ser utilizadas no Penedo d@ Saudade, não podendo ser cedidas a outrem sem a devida autorização.
A fotografia de Joaquim Teixeira, que chegou a ser o melhor marcador do Benfica na época de 1944/45, foi obtida do blogue Glórias do Passado.
As restantes fotos foram obtidas pelo autor deste blogue.

17 comentários:

  1. COMENTÁRIOS IMPORTADOS DO POST EDITADO EM 2 DE MARÇO DE 2011 (1/3)

    Paulo Tavares, 27 de março de 2011 às 12:37

    Vendia também o Diário Popular com a sua saqueta azul a tiracolo!
    Nos fins da década de 60 começou a ser moda o uso de cabelo comprido pelos rapazes. O Taxeira embirrava solenemente com isso. Várias vezes escapou por pouco de uns tabefes quando na Praça da Republica avançava a mão para as virilhas dizendo -- deixa cá ver se és macho ou fêmea!
    Figura muito castiça que é bom lembrar!

    João Portugal Vieira, 17 de maio de 2011 às 00:00

    Eu tenho um filme com ele a queixar-se no bar da AAC, mas está perdido algures por Coimbra ou por Seia. Tenho que o encontrar. As conversas com ele eram só sobre futebol, era uma simpatia comigo.

    Isabel Melga, 17 de maio de 2011 às 01:26

    Muito bom e de inteira justiça terem dado conhecimento a todos os cidadãos que leiam estes textos,uma bela lenda viva, tão querida e emblemática da cidade de Coimbra! Todos nós conhecíamos o Teixeira, fazia parte do nosso quotidiano; mas um facto muito tocante terei de registar:cegueta como era, conhecía-nos pela vós sobretudo os repúblicos que com ele mais conviviam, era espantosa aquela memória, dizia os seus nomes! Que ser humano tão puro, engraçado e trabalhador, vendeu os jornais até mesmo ao fim da vida e a sua morte foi sentida por toda esta Cidade. 17-5-2011 Isabel Carvalho

    Luís Coelho, 5 de outubro de 2011 às 23:05

    Eu jogava futebol na AAC (SF) e treinava-mos no Campo de Sta Cruz. Um belo dia o Freixo (roupeiro) disse-nos que o Teixeira estava a tomar banho no nosso balneário (o que só fazia duas ou três vezes no ano; dizia-se que só tomava banho na queima das fitas). Fomos devagarinho ver o Teixeira no banho mas assim que entramos depressa desistimos pois era tal o cheiro que havia no balneário que não conseguimos ali estar mais do que uns segundos. Impressionante!

    Ricardo Figueiredo, 8 de novembro de 2011 às 22:39

    Meu caro Zé Veloso
    Ainda que fora de tempo, mas para juntar ao descrito:
    "http://memoriadecoimbra-alfaiate.blogspot.com
    RAÚL DOS REIS CARVALHEIRA, Rua de.
    Freguesia de Santa Cruz.
    O seu nome foi dado à rua sem saída que parte da Rua de Aveiro para Norte, prolongando-se para Noroeste, aprovado em reunião da Comissão de Toponímia de 15 de Maio de 2007 e ratificado pelo executivo municipal em 4 de Junho de 2007. A placa toponímica foi descerrada no dia 12 de Janeiro de 2008."
    Abraço

    Resposta de Gracinha, 23 de março de 2014 às 18:19

    Fico muito contente por saber, embora tenha tido conhecimento apenas agora que há uma rua com seu nome (figura tão emblemática que atravessou gerações). O Teixeira faz parte das minhas memórias de infância e da adolescência: da av. Sá da Bandeira, onde nasci e, do velho Teatro Avenida (tão ligado à minha família) , das vezes que ele ia lá a casa jantar ou onde passava no bar do Avenida para beber um fino e da sua voz inconfundível a vender o Diário de Coimbra ou o Popular...

    Resposta de Zé Veloso25 de março de 2014 às 10:23

    A rua é pequenina... mas o gesto é bonito e significativo.
    Raramente figuras como o Teixeira aparecem nas nossas toponímias mais recentes.
    Zé Veloso

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  2. COMENTÁRIOS IMPORTADOS DO POST EDITADO EM 2 DE MARÇO DE 2011 (2/3)

    Zé Veloso, 9 de novembro de 2011 às 15:04

    Ricardo, estes comentários estão permanentemente em aberto, e ainda bem. Desconhecia, eu e muita gente, por certo, que o Teixeira tinha o nome numa Rua de Coimbra. Espero bem que, por debaixo do Nome, esteja escrito (Teixeira). Caso contrário, perde-se a memória que se quereria perpetuar.
    Zé Veloso

    Ricardo Figueiredo, 9 de novembro de 2011 às 22:25

    Conforme a listagem toponimica, no sitio da internete da Freguesia de St. Cruz,Rua Raul dos Reis Carvalheira – O “Taxeira”
    Intriga-me que sendo natural da Freguesia dos Olivais, tenha sido homenageado nesta última.
    Abraço

    Ricardo Figueiredo, 10 de novembro de 2011 às 21:52

    Esclarecido:Nasceu em Torres do Mondego
    Enquanto Freguesia, data de 1 de Fevereiro de 1934, segundo publicado no Diário do Governo 1ª Série Nº 26, onde se pode ler no Art.º 1 “E criado no Concelho de Coimbra a Freguesia de Torres do Mondego”.
    Anteriormente, pertencera à freguesia de Santo António dos Olivais da urbe de Coimbra.
    Abraço

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  3. COMENTÁRIOS IMPORTADOS DO POST EDITADO EM 2 DE MARÇO DE 2011 (3/3)

    G. Reis Torgal, 17 de maio de 2012 às 04:43

    Meu Caro
    Por indicação do meu Querido Amigo Fernando Gaspar, abri este seu Blog, julgo que o é, que eu destas modernices pouco percebo, e li este seu interessante artigo sobre o Teixeira, como sempre lhe chamámos no meu tempo e no anterior pois, como diz, a alcunha vinha-lhe dos anos 40 de um Jogo de Futebol a que assisti. Essa do "Taxeira" é uma modernice dos Coimbrinhas, que é o pior que se pode ser em Coimbra. Espécie infelizmente não em extinção, mas proliferando de modo a que aparecem, vindas deles geniais ideias, como as que destruíram o Teatro Avenida; Inventaram a necessidade de um Metro de Superfície (aqueles que já haviam acabado com os electricos e Tróleis) que só serviu para destruir mais meia Cidade e cabar com a Linha da Lousã, e agora, há pouco, com "genialidade" arquitectónica assassinaram a Brasileira ressuscitada. Para aquilo que ali fizeram, mais valia que não lhe tivessem mexido. Coimbrinha, claro, foi o arquitecto que se meteu na Obra, não o empreendedor da iniciativa, que, nunca suspeitando o que dali ia sair, saudei a mãos ambas e fui entusiasmado á abertura. Temendo que o Bife do Velho Jerónimo tenha sofrido as mesmas barbaridades que a casa não me atrevo a ir lá comê-lo. Desculpe o ter-me alongado, mas os Coimbrinhas mexem comigo e disparo em tanta direcção (eles abundam) que acabo por não "matar" caça nenhuma. Mas isto vinha a propósito de o meu Amigo, falar do Taxeira, coisa que, repito só pode ter nascido de um Coimbrinha. Mas pior do que isso é eu ter visto já escrito ou ouvido dizer que o Raúl Abreu se chamava TAXEIRA por andar sempre de TAXA arreganhada. Se a estupidez ignorante pagasse imposto o Senhor Coelho Passos Pedro e o Comentador de Matraquilhos que o acolita (vulgo Relvas MIguel) e há de correr com ele, não precisava de nos ROUBAR O 13º Mês. UM ABRAÇO

    Resposta de Zé Veloso, 17 de maio de 2012 às 16:25

    Caro Dr. Gonçalo Reis Torgal,
    É uma honra ter como leitor deste blogue uma pessoa que tanto conhece e tanto escreveu sobre a vida académica coimbrã ao longos dos tempos. É sempre bem vindo e faça o favor de "malhar" onde encontrar qualquer informação que não esteja correcta.
    Quando saí de Coimbra, no final da década de 60, "Teixeira" era o nome pelo qual o nosso "futrica estudante" era conhecido. Foi em 2000, aquando da sua morte, que ouvi pela primeira vez chamarem-lhe de "Taxeira", de uma forma que me pareceu estar já enraizada nas gentes académicas de então.
    Hesitei bastante sobre o nome que deveria puxar para o título da crónica: se "Teixeira" ou "Taxeira". Optei pelo segundo, por facilidade de identificação do conteúdo da crónica perante os mais novos, por serem eles que mais necessitados estão de conhecer a Coimbra do nosso tempo.
    Um forte abraço,
    Zé Veloso

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    1. Caro Senhor:
      Nesta coisa da internet, em que, como com as conversas e as cerejas, umas coisas vêm atrás das outras, vim dar aqui a este blog, que li atentamente, por o ter achado muito interessante. Ora eu sou nascida e criada em Coimbra e tive o prazer de fazer o meu curso na vetusta Universidade, sendo uma participante muito activa na vida da Academia. Mas não foi isso que me deu autoridade para fazer o comentário que adiante farei, mas sim o facto de ser filha de alguém que, tendo nascido em 1925 e estudado também no Liceu Nacional de D.João III, passou não os 5 anos que deveria, mas sim o dobro a frequentar a Universidade (não por falta de inteligência, mas talvez por sim por demasiado envolvimento nas actividades extracurriculares). Foi (felizmente, ainda é) uma personagem bastante conhecida nos meandros da Academia, tendo também sido a pessoa responsável por ter conseguido que o Dr Bissaya Barreto oferecesse o actual edifício da Associação Académica de Coimbra. Pois então, meu pai, sendo contemporâneo do "Taxeira", que muito bem conhecia, sempre contou que essa alcunha - Taxeira, e não Teixeira - lhe foi de facto atribuída devido à sua parecença com o jogador de futebol, mas que a versão "Taxeira" era para não o confundir com o outro senhor. Ora, como vê, não me parece que o nome "Taxeira" seja uma modernice de "coimbrinhas" (por favor, agradeço-lhe que não chame tal coisa aos Conimbricenses que se orgulham de o ser, pois é um termo de cariz insultuoso), mas sim uma tradição com muitas décadas. O senhor Raúl dos Reis Carvalheira sempre foi o Taxeira, e nunca Teixeira...

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    2. Cara Ana Sofia Secco,

      Para além de lhe agradecer o seu comentário e a simpática referência que faz ao blogue, começo por felicitá-la pelo que me conta das “actividades extracurriculares“ do seu pai, a quem todos nós muito ficámos a dever, e pela defesa que faz das coisas que o seu pai “sempre contou”.

      Tomei boa nota da sua versão sobre a origem do nome “Taxeira” mas só consigo enquadrá-la numa época e/ou num meio limitados (que gostaria de conseguir averiguar melhor), que terá depois evoluído (é uma hipótese minha), já que todas as evidências que tenho dizem inequivocamente que o nome que se espalhou pela generalidade do universo académico coimbrão até à década de 80 foi Teixeira e não Taxeira.

      Começando por mim próprio, cruzei-me regularmente com o Teixeira entre 55 e 69, ouvi chamar por ele dezenas, se não, centenas de vezes, na rua, nos cafés, no futebol, nos bailes, na Queima, nas Latadas e era sempre Teixeira, salvo os óbvios aligeiramentos de pronúncia. Tenho feito diversas conferências sobre as tradições académicas coimbrãs junto de antigos estudantes, por onde passaram já centenas deles das décadas de 40 a 70 e sempre que se fala no Teixeira é por este nome que ele é reconhecido. Perguntei, em tempos, na página do Facebook “Penedo d@ Saudade – TERTÚLIA” quem tinha conhecido o nosso homem por Teixeira e quem o tinha conhecido por Taxeira; e foi confrontando as respostas dadas com as datas de passagem por Coimbra de quem respondia que pude concluir que, até aos anos 80 só existiu o Teixeira, algures nos anos 80 e até aos inícios de 90 coexistiram Teixeira e Taxeira e, daí em diante, ficou o Taxeira e desapareceu o Teixeira.

      Em termos de referências em livros escritos, o que conheço é o COIMBRA MINHA de Camilo Araújo Correia, memórias da década de 40, que dedica 2 páginas ao Teixeira, assim escrito; o COIMBRA BOÉMIA DA SAUDADE, de Gonçalo dos Reis Torgal, estudioso das coisas de Coimbra e académico nas décadas de 40 e 50, que dedica ao nosso homem 5 páginas onde repetidamente fala no Teixeira; e, finalmente, A ACADEMIA DE COIMBRA 1537-1990, de Alberto Sousa Lamy, editada em 1990, limita-se a nomear o Tàcheira.

      E todas as referências dos 2 parágrafos acima bateriam certo com as conclusões do tal mini-inquérito, se não fosse o que o seu pai sempre lhe contou e, ainda, uma frase que me escapou na primeira leitura do BOÉMIA DA SAUDADE. Escreve Reis Torgal a na pág. 175 do Vol I, depois de contar a história da mordedura e da descoberta das parecenças físicas: «Assim ficou Teixeira ou Taxeira o inconfundível “Teixeira” […]». A que se refere Reis Torgal quando escreve Taxeira? A um Taxeira que assim também era chamado na altura, à mistura com Teixeira? Ou ao nome Taxeira que mais tarde lhe foi colocado (já que o livro é editado em 2003, numa altura em que o nome Teixeira estava já esquecido pelos mais novos)? Ou – e aqui ajustar-se-ia o que o seu pai lhe transmitiu – a um Taxeira intencional para alguns (para se não confundir com o do Benfica) mas que, numa massa estudantil universitária, cultivadora das boas falas, sendo uma palavra de cariz popular, rapidamente evolui para a forma erudita, acabando Taxeira por se fixar em Teixeira, o tal Teixeira que a generalidade da Academia viria a pronunciar décadas a fio?

      Onde estará a verdade? E será que há apenas uma?

      Zé Veloso

      PS: Quanto aos Coimbrinhas, julgo que percebeu que o comentário não é meu. Aliás, desconheço a raiz do termo mas também já o tinha ouvido com um sentido diferente daquele que refere.

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  4. Caro Zé Veloso.
    Mais uma pérola sobre a nossa Coimbra. Concordo a 100% com o final do Post Scriptum.

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    1. Obrigado, Luís.
      De facto, o desconsolo daquela casa ao abandono deitou-me um bocado abaixo.
      Zé Veloso

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    2. Zé. Uma maneira de ultrapassar a tristeza seria publicar todas estas crónicas em livro!!!

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    3. Já pensei nisso, acrescentando-lhes, porventura, um pouco mais de valor, para que o livro não seja um decalque do blogue.
      Julgo que mais à frente o farei... se houver um parceiro que queira arriscar «dançar o tango" comigo.
      Zé Veloso

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  5. Vi o Teixeira pela última vez num cortejo da Queima das Fitas, em que o meu marido e os seus colegas do curso de História comemoravam os 25 anos de caloiros. Não o via há quase 20 anos! Lá ia ele, de capa traçada e fitas amarelas. Íamos todos no cortejo. Já tínhamos passado a Praça da República e descíamos a Avenida, quando me apercebi que o Teixeira caminhava quase a meu lado. Fiquei um pouco intrigada, mas tentei disfarçar, apressando o passo, fingindo que não o via. Foi então que reparei que se aproximava cada vez mais de mim e me mirava com aqueles olhos que eu julgava que mal viam e que já não me reconheceriam. Enganei-me, pois ele, tocando-me no ombro, perguntou-me com aquela voz rouca e arrastada: "Ainda tocas acordeão?"

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    1. Obrigado, Marinela, pelo teu comentário.
      O teu depoimento coincide com o que tenho ouvido a outros: o Teixeira tinha uma memória de elefante. E quando cegou, essa memória ficou-lhe no ouvido e reconhecia, pela voz, as pessoas que já não via há décadas. O nosso amigo comum Phil Colaço contou-me uma história que se passou com ele que aponta no mesmo sentido.

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  6. Boa noite!

    Hoje, um amigo, enviou-me o endereço do Penedo da Saudade e em boa hora o fez. Conheci muito bem o Taxeira, nasci na terra dele, Torres do Mondego em 1934... Soube de muitas histórias que lhe atribuíam , agora já esquecidas, mas dele não me esqueço e da sua voz inconfundível, do seu poiso na Praça da República e pela a cidade... da amizade e brincadeiras que muitos dos estudantes lhe faziam. Foi uma "figura" muito popular!
    Não sabia que tinha uma rua com o seu nome e mesmo que a rua seja pequena, foi uma homenagem merecida. Fiquei contente por saber!

    Havia também o Tatonas, lembra-se dele?

    Desta cidade que não esquece, posso mandar-lhe um abraço?

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    1. Bom dia!
      Desculpe só agora ter podido publicar o seu comentário, que muito me honra.
      Uma vez que é natural de Torres do Mondego, aproveito para lhe perguntar se tem conhecimento de qual era a condição social da família de origem do Teixeira. Há quem me tenha dito - sem o poder confirmar - que teria sido uma família com algumas posses mas que, tendo tido problemas, não teria podido educar o rapaz. Sabe se isto tem algum fundamento?
      Se tiver página no Facebook poderá aderir à página "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA" e ficar mais perto destas histórias.
      Esta tarde colocarei aqui abaixo, em complemento a esta resposta, um texto sobre o Tatonas que gostará de ler.
      E agora sou eu que lhe mando um abraço.
      Zé Veloso

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    2. Boa tarde!
      Aqui vai o prometido texto sobre o Tatonas. Trata-se de um extracto de um post intitulado "O Teixeira e o Tatonas" do blogue "Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras", http://irmandadedassombras.blogspot.pt/2013/07/o-taxeira-e-o-tatonas.html?m=1

      «De figura bizarra e de alguma limitação intelectual, o Tatonas, que creio que não sabia ler nem escrever, pedia uns trocados pelas mesas dos cafés apresentando uma folha de papel no qual estava mencionado o motivo do pedido.
      As folhas tinham sempre uma letra diferente e um texto do género: "Ajudem o Daniel a..." e seguidamente vinha o motivo. Lembro-me ainda de alguns como, "comprar uma camisola que está frio", ou, "comprar pastilhas para a tosse", ou o meu favorito, "comprar o bilhete de comboio para ir à praia à Figueira". Ora, vendo eu as suas mãos cheias de moedas (nunca me pareceu que ele escondesse os ganhos nos bolsos como muitos fazem...) tive que desabafar, "Oh Daniel, mas tu já tens suficiente para a viagem" (e tinha mesmo) ao que ele responde prontamente, "Mas não tenho para comer por lá". Com uma resposta dessas até um forreta como eu desembolsa uma moedinha...
      Outra vez, vendo-o chegar com o papelito cortei-lhe as vazas mostrando a minha carteira vazia e dizendo "Oh Daniel, hoje quem precisa sou eu!" Ao que ele me responde do alto da sua generosidade: "Mas, oh doutor, quanto precisa?" E estendeu-me as moedas que tinha na mão. Ora, tendo eu recusado, imediatamente me prometeu que na Queima me ofereceria uma garrafa de tinto do bom para que os dois bebêssemos.
      E o mais engraçado é que volvidos alguns anos ainda se lembrava da dívida das poucas vezes que comigo se cruzava... Fica-me ao menos o consolo que um dia, que espero não esteja para breve, tenha alguém lá "no outro lado" com quem beber um copo...»

      Um abraço,
      Zé Veloso

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  7. Eu, que conhecia o Tatonas desde sempre, espantado fiquei quando um amigo meu, à vista dele, de longe, chamou: "Ó Cid"!
    E que irritado ficou por ser "confundido" com o cantor.

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  8. Transcrevo abaixo o essencial de um comentário postado por Álvaro Araújo Rocha Vasconcelos na página do Facebook "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA":

    (...) Confesso que fiquei surpreendido com a mini-polémica à volta de "Teixeira" e de "Taxeira", que eu acho absolutamente escusada. Só se justificaria se houvesse confusão entre duas pessoas. Fui caloiro em 1957-58 e acabei o curso em 1961-62 e sempre ouvi chamar-lhe Teixeira e, de quando em quando, certamente por involuntário erro fonético, talvez resultante de alguma preguiça oral, Taxeira. É curioso que eu nunca o tratei por esta última forma, apesar de tender para isso... Devo dizer que, lamentavelmente, desde que saí de Coimbra, em Julho de 1962, conta-se pelos dedos de uma mão o número de vezes que estive na cidade. Sendo assim, como se explica que, ao manusear esta velha fotografias, ao reparar na presença do Teixeira, me ter saltado à memória o tratamento por Taxeira, a que acrescentei aquele? Não fui eu que o inventei nem é criação moderna, posterior a 1960.... Repito que acho a polémica desnecessária, pois todos os que se têm aqui manifestado o conheceram e a ele ficaram ligados, como se ficava ligado a tudo o que, em Coimbra, de algum modo concorria para recordarmos o que foi uma das mais felizes fases na nossa vida. E o Teixeira/Taxeira faz parte dessa nossa vivência. Estou a vê-lo, à luz mortiça que iluminava o terreiro do Palácio dos Grilos, em noite de comemoração da Tomada da Bastilha, por entre o fumo levantado da fogueira onde se assava as castanhas, declamando convictamente as poucas passagens do soneto de Camões que decorara. Fazia-o repetindo o primeiro verso uma dúzia de vezes, quase se resumindo a isso a sua "actuação", com a voz ainda mais rouca do que o habitual, porque a humidade das noites de Novembro e os copos de tinto que à vontade se vertia da torneira do pipo encomendado para a função não se compadeciam das gargantas mais sensíveis, quanto mais da dele... "Alma minha gentil que te partiste...alma minha gentil que partiste..." (...) Abraço.

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