sexta-feira, 14 de julho de 2017

DO TEATRO ACADÉMICO DO SÉC. XIX AO TEATRO ACADÉMICO DE GIL VICENTE


Nos tempos em que andei em Coimbra– terminei os Preparatórios de Engenharia em 1966 – nunca prestei grande atenção ao edifício da Biblioteca Geral da Universidade. É desculpável. Tinha as aulas espalhadas pelos Gerais, pelas Físicas e pelas Químicas; e, na correria entre salas, quando atravessava o Pátio das Mamudas virava naturalmente as costas à austera Biblioteca, enquanto ia lavando os olhos na paisagem ondulante das carinhas larocas e tímidas mini-saias que desciam os degraus da Faculdade de Letras.

Nessa altura, a Biblioteca Geral parecia-me ser, à semelhança das já terminadas Faculdades de Letras e de Medicina, um edifício construído de raiz, em cima das demolições dos anos 40... Puro engano! Inaugurada em 1956, ela fora construída a partir da destruição parcial de uma Faculdade de Letras anterior, que não chegou a durar duas décadas, da qual se aproveitaram os alicerces e alguma parte do miolo, mas cujas fachadas foram totalmente remodeladas.

Mas que defeito teria essa antiga Faculdade de Letras – um interessante projecto do arq.º Silva Pinto – para ser assim desaproveitada? Independentemente do facto de Cottinelli Telmo, o Papa da remodelação da Alta, achar que faltava dignidade ao edifício (!?), havia quem lhe apontasse o pecado de possuir um grande vão interior, que serviria bem à sala de leitura de uma (futura) biblioteca, mas que tinha pouco aproveitamento numa Faculdade de Letras…

E tudo isto porque esta antiga Faculdade de Letras também não fora um edifício projectado de raiz, mas sim a adaptação do projecto de um teatro académico, cuja construção, nunca concluída, começara na primeira década do séc. xx, e da qual se tinham aproveitado… os alicerces; de tal forma que o enorme vão onde hoje está instalada a sala de leitura da Biblioteca Geral correspondia, no projecto do dito teatro, ao espaço reservado à caixa do palco, plateia, camarotes e galerias!

E se recuarmos no tempo até ao séc. xix, o que vamos encontrar naquele local é o célebre Teatro Académico que nos é descrito por Trindade Coelho no In Illo Tempore, o qual, ao ser demolido em 1888, deixou a academia sem um dos polos aglutinadores da vida cultural universitária e sem o edifício que, durante cinquenta anos, foi sede da Associação Académica e dos organismos que a precederam.

As voltas que o mundo dá! Ou melhor, as voltas que este espaço deu! Mas comecemos a história pelo princípio:

No quarteirão onde hoje se encontra a Biblioteca Geral, mandou D. João III edificar, em 1549, o Colégio Real de S. Paulo Apóstolo, destinado a alojar clérigos indigentes que viessem estudar para a Universidade. Em 1838, já depois do decreto de extinção das ordens religiosas, o imóvel é entregue à recém-criada Nova Academia Dramática que, depois de sucessivas transformações, haveria de dar lugar à Associação Académica de Coimbra. Fazem-se obras no claustro do edifício para aí alojar o Teatro Académico, que é inaugurado em 1839. Ao longo dos anos que se seguiram, o Colégio Real foi partilhado com outros organismos, entre eles o Instituto de Coimbra (depreciativamente tratado por Clube dos Lentes), o qual surgiu como dissidente da Academia Dramática de Coimbra, entidade que, entretanto, tinha sucedido à Nova Academia Dramática.

Mas em 1888, na sequência de um incêndio de consequências terríveis no Teatro Baquet do Porto, onde terá morrido mais de uma centena de pessoas, o Teatro Académico foi alvo de uma auditoria que concluiu por insuficientes condições de segurança e determinou a imediata demolição de todo o imóvel. É certo que o edifício estava degradado, mas houve quem visse na rapidez desta decisão uma resposta oportunista à disseminação das ideias republicanas que grassavam na academia, da qual o Teatro Académico era ponto de encontro e uma importante fonte de receita. E lembro que, pouco tempo antes, a 3/11/1887, a Academia Dramática de Coimbra se transformara na Associação Académica, que teve como primeiro presidente António Luís Gomes, um prestigiado estudante republicano.

Abro aqui um parêntesis para salientar a curiosidade de a Associação Académica de Coimbra ter na sua génese uma Academia Dramática e um Teatro Académico!

Demolido o teatro e sem casa onde morar, a Associação foi atirada para o Colégio da Trindade em 1890 e ocupou posteriormente prédios acanhados na Rua Larga e na Rua do Cosme, enquanto se aguardava que uma nova sede e um novo teatro fossem construídos no local onde tinham existido as anteriores instalações; porém, vinte anos depois, as obras ainda se arrastavam, entre indefinições do projecto, e pouco subiam além das fundações. Até que, em 1913, o Governo decide atribuir o edifício em construção à recém-criada (1911) Faculdade de Letras e despachar a Associação Académica para o Colégio de S. Paulo Eremita na Rua Larga, edifício que tinha sido o último colégio a ser fundado em Coimbra, já no tempo de D. João V.


O edifício era bom, mas o presente vinha envenenado, pois que a Associação Académica teria de se apertar no r/c, enquanto no 1.º andar e nas águas furtadas viveria o Instituto de Coimbra – o Clube dos Lentes –, com o qual as coisas não tinham corrido bem no Colégio Real de S. Paulo Apóstolo. E embora houvesse a promessa de que o Instituto sairia para outro lado a breve trecho, a verdade é que, passados sete anos, estes inimigos de estimação ainda ali se mantinham.

E foi por isso que, em 25 de Novembro de 1920, os do r/c perderam a paciência e decidiram fazer o despejo dos que viviam por cima, às 6 e 45 da matina, inda os galos estavam a esfregar os olhos. Chamaram ao golpe A Tomada da Bastilha. E por ali se quedaram até que o camartelo investiu uma vez mais contra a sua sede, aquando da remodelação da Cidade Universitária

Caída a Bastilha, a AAC transferiu-se em 1949 para o Palácio dos Grilos (Colégio de Santa Rita, construído pelos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, a quem o povo chamava Grilos), onde continuava a não haver teatro, mas – ironia do destino! – tinha por vizinhos, uma vez mais… o Instituto de Coimbra / Clube dos Lentes. E chegados a 1954, como a construção de uma nova sede, agora prevista para a Praça da República, continuasse atrasada, um grupo de estudantes voltou a ocupar as instalações do Clube dos Lentes, numa segunda Tomada da Bastilha, simbólica, de apenas uma noite.

Não imaginavam, porém, estes revoltosos, que a desejada saída para uma nova sede viria a ser tão agitada e, até… contrariada pelos próprios estudantes! É que, chegados a Maio de 1962, estando iminente o encerramento da sua sede – na sequência de conflitos que se arrastavam entre a academia e o governo e que culminaram na chamada crise de 62 –, os estudantes decidiram trancar-se dia e noite no Palácio dos Grilos, de onde só viriam a sair com a intervenção da polícia de choque e sob a ameaça de prisão dos elementos da Direcção da AAC.

A crise de 62 e a ocupação do Palácio pela polícia de choque – que resultou no fecho da sede da AAC e obrigou a passar as Assembleias Magnas para o Campo de Santa Cruz – ditaram, para além da punição de muitos estudantes, o luto académico e, com ele, o cancelamento dos festejos da Queima e da Tomada da Bastilha de 62, e das latadas do início do ano de 62/63.

Entretanto, uma nova sede estava já construída e pronta a funcionar junto à Praça da República, mas a academia recusava-se a ocupá-la sem garantias de que viesse a ser por si gerida. Só viria a ser aberta em Outubro de 1963, um mês antes de voltar a haver eleições para a AAC. Durante vários anos ela foi a minha segunda casa: cantina, sala de ensaios, local de convívio e de estudo, que alternava com os muitos cafés da cidade...

Do complexo da nova sede fazia parte o tão desejado teatro, que também nasceria envolto em polémica, e não apenas por causa do seu modelo de gestão... ou autogestão. A academia sonhava com um teatro só para si e queria que ele se chamasse Teatro Académico. Porém por sugestão de Paulo Quintela (TEUC), a sala viria a denominar-se Teatro de Gil Vicente. E tudo isto alimentava uma contestação surda, que rebentou em pancadaria entre estudantes e polícia, aquando da sua inauguração prematura em Setembro de 1961 para acolher o festival de teatro VIII Delfíada, altura em que também abriram de forma experimental a cantina e as salas de convívio da Associação.

Inaugurado o teatro e terminada esta espécie de ante-estreia, a sala esteve fechada durante quatro longos anos, até ser aberta em Julho de 1965, 77 anos e 5 meses depois de o último espectáculo se ter realizado no velhinho Teatro Académico do séc. xix. E foi já depois do 25 de Abril de 1974, em data que não consegui ainda apurar (– Quem sabe? – Quem ajuda?) que o teatro passou a chamar-se Teatro Académico de Gil Vicente. Custou mas foi!

POSFÁCIO: Felizmente para a academia, enquanto todos estes factos se passavam, existia ao fundo da Avenida Sá da Bandeira uma sala de espectáculos alheia que, ano após ano, ia acolhendo as récitas de despedida, os saraus da Queima, os filmes em noite de latada, os cineclubes e o mais que houvesse, como se de um vero teatro académico se tratasse – o Teatro Avenida! Naquelas noites de glória, ele foi o Teatro Académico de dezenas de gerações de estudantes, entre as quais a minha se inclui!

Inaugurado em 20 de Janeiro de 1893 com o nome de Teatro Circo do Príncipe Real D. Luís Filipe, também ele não viria a resistir ao camartelo, já nos finais da década de 1980. Teve, porém, um final menos digno do que o do velho Teatro Académico, sobre cujas ossadas existe hoje uma biblioteca para matar a sede de saber. Ao Teatro Avenida acharam mais próprio botar-lhe em cima um centro comercial para matar a fome do consumo! Mas a sua alma continuará viva enquanto ele viver na recordação dos que nele e com ele vibraram.

Tendo eu começado esta crónica pelo que existe hoje no local onde outrora existiu o primeiro Teatro Académico, faz sentido que a termine referindo o que foi demolido para construir em seu lugar o Teatro Académico de Gil Vicente. E o que foi demolido chamava-se Jardim de Infância D. Maria do Resgate Salazar (nome dado em homenagem à mãe de António de Oliveira Salazar), vulgarmente conhecido por Ninho dos Pequenitos, da obra social do Professor Bissaya Barreto. A demolição do velho Ninho dos Pequenitos determinou a sua passagem para a Quinta da Rainha, abaixo do Liceu D. João III, onde se construíram novas instalações, lado a lado com o Instituto Maternal.

Como dizia o Poeta: «Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades!» 

Zé Veloso

Fotografias: obtidas na internet

Bibliografia:

- A Velha Alta… Desaparecida. Edição da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, Almedina, 2.ª edição, 1991.

- AGUIAR, Cristóvão de. Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia. Edição do autor, 2005.

- AGUIAR, Cristóvão de. Nova Relação de Bordo. Cristóvão de Aguiar e Publicações Dom Quixote, 2004.

- «As Novas Instalações da A.A. - Exposição», in Via Latina, n.º 135, 16-12-1961.

- COELHO Trindade. In Illo Tempore. Estudantes, Lentes e Futricas. Livraria Aillaud & C.ª, 1902, https://ia800300.us.archive.org/18/items/inillotemporees00coelgoog/inillotemporees00coelgoog.pdf.

- «Instituto de Coimbra o percurso de uma Academia > Sedes» in História da Ciência na UC, http://www.uc.pt/org/historia_ciencia_na_uc/Textos/instituto/sedes (acedido em 13/10/2016)

- LAMY, Alberto Sousa. A Academia de Coimbra. 1537-1990. Rei dos Livros, 1990.

- NUNES, António M. «O Teatro Avenida», in Guitarra de Coimbra, 5/3/2006, http://guitarradecoimbra.blogspot.pt/2006/03/o-teatro-avenida-vista-geral-da.html (acedido em 28/6/2017).

- NUNES, Avelãs. «A nova sede», in Via Latina, n.º 132-133, 28-11-1961.

- «O primeiro Teatro Académico de Coimbra - o berço da A.A.C.», in Centelha, http://bloguecentelha.blogspot.pt/2007/11/o-primeiro-teatro-acadmico-de-coimbra-o.html (acedido em 10/10/2016).

- «O Teatro Baquet. (Cidade do Porto), in Monumentos Desaparecidos, http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2009/10/o-teatro-baquet-cidade-do-porto.html (acedido em 10/10/2016).

- ROSMANINHO, Nuno. O Poder da Arte. O Estado Novo e a Cidade Universitária de Coimbra. 2006, Imprensa da Universidade de Coimbra.

- SANTANA, João; MESQUITA, João. Académica. História do Futebol. Almedina, 2008.

- SOARES, António José. Saudades de Coimbra, 3 volumes (1901 a 1949). Almedina, 1985.

2 comentários:

  1. Obrigado por este passeio pela "memory Lane"...!
    Recordo com saudade o Palácio dos Grilos, onde eu ia quase todos os dias, desde a reacção Coimbrã ao Decreto 40900 até à inesperada visita do Ministro da Educação Engº Leite Pinto. Este, como o snr Chico, porteiro da Académica, o não deixasse entrar de surpresa, divertiu-se a ver o monumento a Camões, ali arrumado à entrada. O Leão assexuado estava bem por cima da estrofe (Canto IX) "Melhor é, merecê-los sem os ter/ que possui-los sem os merecer... Como se isso não bastasse algum noctívago tinha prendido a fera com uma linha a uma das argolas onde outrora se prendiam os muares. Isto levou o arguto Ministro a compreender que de facto a academia de Coimbra era diferente..

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    1. Obrigado, amigo, pelo seu comentário.
      Há muitos comentários ao post que são expressos na página do facebook "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA", onde é muito mais fácil postar, mas eu agradeço bastante a quem se dá ao trabalho de postar os seus comentários aqui, já que este é o local onde ficam de forma mais perene e mais facilmente consultável.
      E havendo comentários que juntam mais informação, o post mantém-se dinâmico.
      Zé Veloso

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